Delgado Alves, Avenida e Trump: sintomas de uma democracia bloqueada

Da convergência económica dos extremos à erosão do decoro institucional, a "teoria da ferradura" revela-se hoje um círculo vicioso que impossibilita já a saudável convivência democrática.
Ricardo Simões Ferreira

Editor-Executivo Adjunto do Diário de Notícias

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Esta semana a "teoria da ferradura" da ideologia política — a tese que defende que os extremos, longe de serem opostos, se tocam e assemelham em métodos e retórica — deu dois sinais claros de que, na realidade, já se transformou num círculo perfeito ou que, na verdade, sempre o foi. Seja em Portugal ou no estrangeiro. Comecemos por cá.

Que a revisão da lei laboral iria ser chumbada pelos sindicatos é algo apenas surpreendente para os mais ingénuos. Mas que o líder do Chega colocasse a redução da idade da reforma como condição para a discussão da mesma com o Governo foi, isso sim, um coelho da cartola que nem o cínico mais prevenido esperaria. Ventura assumiu, de vez, um discurso que poderia ter sido proferido por um líder do PCP — atualmente Paulo Raimundo, mas o rosto é indiferente. Não é a primeira vez, diga-se, mas agora só mesmo os seus mais acérrimos defensores podem fingir não o ver. Parafraseando outro grande mestre das contas públicas: e onde é que se vai buscar dinheiro para isto? “Ora, gasta-se tanto dinheiro mal gasto?!” (Mário Soares, no contexto das eleições de 1985).

Ventura, claro, jura que paga todas as promessas com o “combate à corrupção”. É o seu equivalente ao “os ricos que paguem a crise” dos comunistas. Para qualquer pessoa de bom senso — nem é preciso ser economista — uma ‘tese’ é tão fantasiosa quanto a outra. E assim ficamos.

Isto acontece porque, em vez de procurarmos os melhores e mais competentes para nos retirarem do buraco coletivo em que estamos metidos, criámos uma sociedade que prefere o conforto de ficar "ofendidinha" a ouvir uma crítica. Só isso justifica a atitude de Pedro Delgado Alves — antigo vice-presidente da bancada de um partido que, até há pouco, gozava de maioria absoluta — ao virar as costas à segunda figura do Estado durante as comemorações do 25 de Abril.

O próprio Delgado Alves gosta de citar a máxima: “Quem não se sente, não é filho de boa gente.” Mas o seu cargo, atual e passado, exigia-lhe outro juízo. Embora tenha sido alvo de críticas imediatas dentro do próprio partido (Ascenso Simões não foi meigo no X), o que importa aqui é o princípio. Como escreveu Salman Rushdie: "Numa sociedade livre, ninguém está livre de ser ofendido." Se o Parlamento celebrava a liberdade, era imperativo que um ex-dirigente do PS — partido que se reclama pai da democracia — demonstrasse entender este conceito em pleno. Sentiu-se ofendido com as palavras do presidente da Assembleia? Não aplaudia, mantinha-se sentado e exercia, mais tarde, o seu direito à crítica.

Uma sociedade livre é, também, uma sociedade de regras — explícitas e tácitas. Quando destruímos este chão comum, o diálogo morre. Quando um lado se arroga uma autoridade moral absoluta sobre o outro, o compromisso torna-se impossível — é assim que se destrói a democracia. Foi o caso de Delgado Alves e foi, tragicamente, o caso das hordas ligadas à esquerda que, mais uma vez, tentaram expulsar a Iniciativa Liberal da Avenida da Liberdade.

Neste 25 de Abril, a PSP teve de dividir manifestações por segurança. A líder da IL foi impedida de discursar "para não agitar as águas". Tudo isto é só o cúmulo do oposto daquilo que, supostamente, se celebrava. Já nem me alongo sobre os insultos e as tentativas de agressão — devidamente documentadas nas redes sociais, já que os fotojornalistas e as televisões pareciam sempre estar a olhar para outro lado — contra quem vestia de azul. Ou os cartazes juvenis, carregados de um ódio cego contra Ventura e companhia, que a sanidade mental me impede de transcrever.

Mas como esperar civismo quando o guru desta geração — o Rui Tavares, qual Louçã da Geração Z — não hesita em colar rótulos de "nazi" ao adversário pelo simples facto de este usar a expressão “facada nas costas”? Ao declarar que a linguagem de Ventura é um decalque direto da retórica de Hitler contra a República de Weimar, Tavares não está a debater, está a desumanizar.

Detesto lugares comuns, mas a "fábula" do Pedro e do Lobo é aqui um sério aviso. Quem passa a vida a berrar "lobo" perante qualquer divergência não pode surpreender-se quando as suas palavras galvanizam maluquinhos. Depois aparece o militante do PS que atira um cocktail Molotov contra mulheres e crianças, as jovens que tentam lançar engenhos pirotécnicos sobre a IL, ou, num plano mais dramático, o terceiro atentado a Donald Trump no passado sábado.

A não ser, claro, que este caos seja exatamente o resultado pretendido pelas elites intelectuais. Afinal, segundo avançou o New York Post na última semana, o Southern Poverty Law Center — uma organização progressista dedicada a monitorizar grupos de ódio — foi acusado de pagar a um ex-líder do Ku Klux Klan para atuar como informador, tendo este usado o dinheiro para os fins que muito bem entendeu. Ou seja: uma instituição criada para combater o extremismo financiou… um extremista.

O que também está certo. Afinal, o Partido Democrata, a grande força política dos EUA mais à esquerda — hoje refém de uma ala radical protagonizada por Alexandria Ocasio-Cortez, Bernie Sanders ou Ilhan Omar — é aquela que tem raízes históricas profundas nas redes segregacionistas do Sul, de onde também emergiu o KKK. É uma ironia histórica que, analisada à luz do presente, até faz todo o sentido.

De facto, a teoria da ferradura não é apenas uma tese académica. É um facto real que impede qualquer evolução.

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