A praia tem um lugar especial no coração de uma larga maioria dos portugueses. Seja pelas memórias e bem estar que proporciona, pela associação a tempos de lazer e de férias, ou outro motivo qualquer. É um espaço público do mais democrático que pode existir, onde se misturam ricos e pobres, locais e turistas, crianças e seniores. Pelo menos, assim devia ser. No entanto, aos poucos, vão surgindo obstáculos. Problemas de vária ordem e que precisam de respostas diferentes, para que permaneça livre o acesso da população a estes espaços públicos. Há tendências que surgem rapidamente e que só se conseguem conter com legislação (como aconteceu com a proibição do uso de colunas de som na praia), outras que tentam ganhar terreno lentamente e que precisam de ser contestadas tanto judicialmente, como através da voz dos cidadãos (caso das cadeias hoteleiras que procuram condicionar/dificultar o acesso à linha de praia, quase como privatizando esses locais), e ainda aquelas que já se instalaram de tal forma, normalizando-se, que se torna necessário recordar que não têm qualquer respaldo na lei.Foi isso que fez esta semana o presidente da Associação Portuguesa do Ambiente (APA) em relação à suposta interdição de os banhistas utilizarem chapéus-de-sol no areal em frente às concessões de praia, as quais cobram pela utilização de pontos de sombra fixos e outras comodidades, como espreguiçadeiras, garantindo aos seus clientes, ao mesmo tempo, mas de forma encapotada, vista direta para o mar. “A única área que está onerada e que está concessionada é aquela que está delimitada por aquele retângulo e nada mais, isto que fique claro. Todo o resto é de uso livre”, afirmou José Pimenta Machado, salientando ainda que a colocação de sinalética a proibir de chapéus-de-sol em frente das concessões “é um abuso” e que essa situação terá de ser revista.Algumas concessionárias navegam no desconhecimento dos banhistas e até das autoridades para criar o seu próprio conjunto de regras, muitas vezes defendido em primeiro lugar pelos nadadores-salvadores que estas têm de contratar por obrigação legal. Além disso, mesmo alguns banhistas mais conscientes da lei preferem deslocar o chapéu-de-sol uns metros mais para o lado e evitar, logo à partida, uma troca de argumentos capaz de perturbar um dia que devia ser de ócio – não deixa de ser curioso que tanta gente obedeça sem pestanejar à sinalética das concessionárias e, depois, não tenha qualquer problema em colocar o chapéu-de-sol por baixo de uma arriba instável.Pois bem, este alerta da APA chega em boa hora e a clarificação deve ser rápida, para que Portugal não se transforme numa nova Itália. Por lá, as concessionárias permanecem há décadas nas mãos da mesmas famílias e foram ganhando metros de areal com o passar dos anos, empurrando o banhista que não quer pagar pelos serviços para faixas de terreno cada vez mais curtas. Nos últimos anos, grupos de cidadãos organizaram-se para contestar este poder das concessionárias e o assunto tornou-se até um foco de pressão política para o governo de Giorgia Meloni. Por cá, talvez seja chegada a hora de colocar o seu chapéu-de-sol bem em frente à concessionária e defender esse direito, se for preciso. Antes que seja tarde demais.