No princípio foi Adorno, nos seus estudos sobre música, que detetou nos últimos quartetos de Beethoven aquilo a que chamou o “estilo tardio”: tendo alcançado o cimo da sua potência criadora, o compositor punha em questão os parâmetros e regras da sua obra e aventurava-se por campos desconhecidos, prenunciando a música do futuro. Thomas Mann, no Doutor Fausto (escrito com o apoio “técnico” de Adorno) põe em evidência esse processo do criador sobre a sua própria criação.Este estilo tardio, feito de rejeição e da tensão do contraditório, dificilmente se poderia aplicar ao mais recente livro de poemas de Manuel Alegre Balada do Corsário dos Sete Mares. É certo que o poeta se afasta do seu registo ao mesmo tempo heróico e dramático (cantar por dentro da própria desilusão) e do seu esmerado decassílabo, para entrar num caminho de concisão e precisão da imagem, que encerra momentos de beleza e de união com as coisas da terra numa música breve e contida, como quem passa de uma orquestra sinfónica para um quarteto de cordas. Mas, ao contrário dos quartetos de Beethoven, não é a tensão dos contraditórios que nos alcança aqui, mas o mundo da vida, na sua plenitude e na sua limitação.Se não escreveres a vida continuaárvores e peixes nem darão por issoEssa aceitação da vida não é nunca um movimento de passividade ou de renúncia. Por isso o poeta nos adverteQuem não esteve comigo nas batalhasnão compreende parte do que escrevoE a solidão essencial da palavra da poesia é como que esconjurada nos poemas de amor que surgem no livroTu és a sentinela da minha vidaa que me agarra a mão e seguraMas o que o leitor de Manuel Alegre sente neste livro é uma delicada surdina, em que os versos nos vêm suavemente bater à porta, longe da orquestração vibrante dos grandes poemas do autor. É queHá muitas maneiras de entrar no poema.Agora vou pé ante péOs olhos já não vêem como viamhá buracos sem fundoescadas sem corrimãopalavras amontoadas como pedras.O poema está cheio de armadilhas.O tempo vivido pelo poeta, com todo o vigor da sua memória, encontra-se com este tempo que vivemos à escala do mundo, em que a memória se está a desfazer face a uma cega repetição de infernosEste é tempo de tempo obscurecidotempo sem a certeza de amanhãas flores que vais colher podem murcharantes que na palavra o sol desponte.(...)minha canção é uma nota anoitecidatempo de já ter visto e já ter sidoAssim, a arte não ignora o desastre: pode, como nos quartetos de Beethoven, subverter os seus próprios parâmetros; ou pode, como neste livro de Manuel Alegre, passar com delicadeza das suas formas passadas a uma forma mais sucinta, tal como em Schubert, se passa das sinfonias para o sublime Quinteto em dó maior.Este livro de Manuel Alegre veio introduzir uma nova melodia na sua obra. O que é tardio é sempre jovem.