De Costa a Costa

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No espaço geográfico, o Brasil muda muito: no mesmo telejornal pode haver uma notícia de cheias brutais nas regiões serranas do sul do país e, logo a seguir, uma outra em que se relata a seca terrível no sertão do nordeste.

No tempo cronológico, não tanto: alguém disse um dia que, por causa do imenso caudal noticioso, quem se ausenta do Brasil por 10 semanas, quando volta, acha tudo diferente. Já quem se ausenta por 10 anos quando volta, percebe que, na verdade, está tudo na mesma, sensação atribuída à falta de mobilidade social crónica brasileira, em que castas se perpetuam nos poderes económico, político e patrimonial.

Mas também à repetição quase maníaca da história local.

Uma dessas manias do Brasil é eleger ciclicamente um “pai dos pobres”: já foi Getúlio Vargas, lá nos anos 30, depois veio Lula da Silva, a partir do século XXI.

Na sequência, o país apavora-se com “o fantasma do comunismo”, fosse em 1964, que resultou numa ditadura militar de 21 anos, fosse no último decénio, marcado pelo recrudescimento de uma agenda conservadora de extrema direita.

Por falar em extrema-direita, Jair Bolsonaro foi só mais um dos “salvadores da pátria” eleito para varrer a corrupção, como Jânio Quadros, nos anos 60, ou Collor de Mello, nos anos 90, ambos do século passado e também sem sucesso - pelo contrário - na tarefa.

O liberalismo económico defendido por Collor ressurgiu via governo de Michel Temer e gestão da economia pelo ministro bolsonarista Paulo Guedes, em resposta, nos dois casos, ao nacional-desenvolvimentismo, a corrente económica keynesiana promovida quer pela ditadura militar, antes, quer pelos governos do Partido dos Trabalhadores, depois, embora com focos muito diferentes.

Num recorte mais recente, o escândalo de corrupção do Banco Master, que vem respingando em setores da política, da direita à esquerda, desde que rebentou em 2025, é uma reprodução fiel do escândalo do Petrolão, investigado na célebre Operação Lava-Jato, em 2014, que respingou em setores da política, da direita à esquerda.

A reação dessa política, da direita à esquerda, ao escândalo do Banco Master também é uma cópia perfeita da reação das castas ao escândalo do Petrolão: bloqueá-la “num grande acordo nacional, com o Supremo, com tudo”, parafraseando Romero Jucá, um senador envolvido até ao pescoço na Lava-Jato.

As semelhanças, entretanto, chegam a ter contornos fantásticos: o efeito dominó que levou a prisões em série no Petrolão só começou quando um burocrata estatal de topo, da petrolífera Petrobras, decidiu assinar um acordo de delação premiada, assim como o Caso Master vai começar a doer nas costas das castas agora que outro burocrata estatal de topo, desta vez do Banco de Brasília, parece determinado a fazê-lo.

E como se chamava o burocrata estatal de então? Paulo Costa. E o de agora? É outro Paulo Costa! Quem estiver ausente do Brasil há 10 anos, quando voltar vai chegar à conclusão de que, no fim das contas, está tudo muito igual.

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