Durante quase uma década, ouvimos o poder político repetir, com triunfalismo, um refrão supostamente reconfortante: Portugal tinha, finalmente, conseguido formar a “geração mais bem preparada de sempre”. António Costa, enquanto primeiro-ministro, foi dos que mais o afirmaram nos últimos anos. Só que os resultados do PISA vieram agora demonstrar que essas palavras eram (mais) uma ficção administrativa. O país foi empurrado para um recuo histórico na Leitura e na Matemática – os alunos estão ao nível dos seus pares de há 20 anos.
O descalabro é tal que até o ex-ministro João Costa veio a público assumir responsabilidades pelas opções tomadas desde 2016. Um ato que só lhe ficou bem, em especial por ser raríssimo num político – e ainda menos comum vindo da sua área política, tendo em conta a História recente e de todo o século XX. Mas de nada resolve aos rapazes e raparigas que, acabada a escolaridade, mal sabem ler, escrever e fazer contas.
João Costa foi, claro, das honrosas exceções. Como sempre, apressaram-se a surgir os bodes expiatórios do costume. Comecemos pelo mais risível: a tentativa de culpar a Inteligência Artificial pelo colapso das aprendizagens. Bastaria um exercício de aritmética elementar para desmontar a patranha: o ChatGPT e outras ferramentas de IA generativa de massas só irromperam no final de 2022, quando estes alunos de 15 anos já tinham ultrapassado a infância e consolidado – ou melhor, falhado em consolidar – as fundações da literacia e do cálculo no 1.º e 2.º ciclos. Mais: as provas internacionais decorrem em computadores blindados, sem acesso à internet. Culpar a IA pela incapacidade de interpretar um texto denso ou resolver uma dedução lógica não é ignorância técnica; é pura fuga à responsabilidade política.
Depois, surge o argumento de que a culpa é dos ecrãs e de que países no topo da tabela, como Singapura ou o Reino Unido, atingiram a excelência porque “abdicaram da tecnologia”. É outro disparate conveniente. O que esses países fizeram foi separar o trigo do joio: baniram a distração dopaminérgica e o scroll passivo de smartphones na sala de aula, mas integraram ferramentas digitais com rigor cirúrgico. Compreenderam uma regra básica da cognição: a tecnologia é um amplificador, e qualquer número multiplicado por zero continua a ser zero. Sem o domínio prévio do vocabulário, da sintaxe e da disciplina mental bem trabalhada, o computador serve apenas de atalho para a superficialidade.
Não é possível saber usar a tecnologia sem ter as competências básicas. Mas também não é possível, hoje em dia, ter todas as competências básicas sem perceber convenientemente o que é tecnologia. O que é profundamente errado é achar que tecnologia é scrollar o TikTok.
Em Portugal, a tragédia acentua-se com um corpo docente envelhecido e esgotado, empurrado para a burocracia de caçar créditos ou estatísticas de aproveitamento em vez de ser capacitado em didáticas digitais específicas – ferramentas dinâmicas de geometria, ciências ou consolidação lexical que poderiam fazer a diferença logo a partir do 2.º ciclo. Elas existem: é preciso saber usá-las e ter meios para o fazer nas escolas onde os alunos realmente precisam delas.
A somar a isto, vigora em Portugal a asfixia do “tamanho único”: a ilusão de que um gabinete ministerial em Lisboa pode desenhar a mesma receita rígida para um bairro periférico desfavorecido ou para uma vila do interior, manietando a autonomia real das escolas e nivelando a bitola por baixo. E sempre que se tenta mudar isto, vêm logo gritar que se está a querer privilegiar “os ricos”, quando na realidade apenas se procura tratar de forma diferenciada o que é estruturalmente diferente.
A finalizar, cometeu-se o pecado capital: a erradicação da avaliação objetiva externa como radar de diagnóstico. Vendeu-se a tese de que avaliar estigmatiza, trocando a exigência pela transição administrativa automática. Uma sociedade sem métricas transparentes, sem sinalização do esforço e sem meritocracia não protege os mais fracos — condena-os à ilusão.
Sem exames externos e cegos, o mérito é engolido pelo berço: quem tem posses compra boa educação onde ela estiver, porque quer o melhor para os seus filhos; quem depende da escola pública, porque não pode pagar melhor, fica com um diploma esvaziado.
O elevador social, que já andava perro e era mais vagaroso do que subir uma corda a pulso, não avariou por causa da tecnologia. Foi sabotado por quem rebaixou a fasquia para fingir que todos tinham chegado ao topo. O resultado está à vista: mais uma geração hipotecada. E enquanto se insistir nos bodes expiatórios do costume, na aversão à bitola e na recusa em enfrentar a realidade, a fatura desta capitulação continuará a ser paga por quem mais precisava da escola de acesso universal para subir na vida.