Da eletricidade renovável à economia eletrificada

Bernardo Ivo Cruz

Professor convidado UCP/UNL/UÉ

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Cerca de 80% da eletricidade consumida em Portugal provém de fontes limpas, colocando-nos entre os líderes europeus e demonstrando como uma estratégia nacional consistente pode transformar uma política ambiental numa vantagem competitiva.

Mas a eletricidade representa apenas cerca de 30% da energia final consumida. Apesar do sucesso na produção elétrica, a maior parte da energia utilizada nos transportes, na indústria e nos edifícios continua dependente do petróleo e do gás natural. Produzimos eletricidade limpa, mas ainda não a utilizamos em escala, para substituir os combustíveis fósseis.

Abrem-se, por isso, dois cenários para a próxima década.

No primeiro, limitamo-nos a consolidar o que já alcançámos. Mantemos uma eletricidade maioritariamente renovável, mas adiamos a eletrificação da economia. O resultado será uma transição incompleta com emissões elevadas, dependência energética externa e uma oportunidade perdida de transformar uma vantagem ambiental numa vantagem económica.

No segundo cenário, assumimos a eletrificação como eixo estratégico de desenvolvimento. Para tanto, temos de aumentar a produção de eletricidade renovável para responder ao crescimento da procura. A mobilidade elétrica, a substituição de sistemas de climatização fósseis e a eletrificação da indústria exigirão mais energia limpa que, acompanhada pelo biometano e pelo hidrogénio verde, deve ser encarada como um fator central de competitividade.

E temos de garantir que essa eletricidade chega efetivamente à economia. Isso implica reforçar redes, capacidade de armazenamento e infraestruturas de carregamento, modernizar edifícios, adaptar processos industriais e remover entraves regulatórios que continuam a atrasar investimentos e a limitar a utilização de eletricidade renovável.

A escolha entre estes dois cenários não é apenas ambiental.

É também económica. Cada unidade de energia produzida e consumida em Portugal reduz importações de combustíveis fósseis, melhora a balança comercial, reforça a competitividade e diminui a vulnerabilidade aos choques internacionais.

E é geopolítica. Num mundo marcado por crescente instabilidade, depender menos de energia importada significa reforçar a segurança nacional, a autonomia estratégica e a capacidade de decisão do país.

Há, porém, uma condição prévia: a transição tem de ser justa. Muitas famílias e empresas não têm capacidade para substituir veículos, sistemas de aquecimento ou equipamentos produtivos, mesmo quando a eletrificação lhes proporcionaria poupanças futuras. Uma política nacional de eletrificação deve concentrar apoios onde eles são mais necessários, garantindo que a transição reduz desigualdades em vez de as aprofundar. Sem isso, a transição energética perderá apoio social e legitimidade democrática.

A segunda fase da transição energética será medida não apenas pelos megawatts produzidos. Será medida, sobretudo, pela capacidade de colocar uma eletricidade cada vez mais limpa e menos exposta à volatilidade internacional, ao serviço da economia, da coesão social e da autonomia estratégica.

Portugal dispõe hoje de recursos naturais, capacidade tecnológica e uma das eletricidades mais limpas da Europa. A questão já não é saber se conseguimos produzir energia renovável mas se teremos a ambição para transformar essa vantagem num novo modelo de desenvolvimento de nacional.

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