'Da Ciência ao Amor' – uma leitura de verão

Tiago Fleming Outeiro

Diretor da Faculdade de Medicina e Ciências Biomédicas, Universidade do Algarve

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Gosto de ler e aprender sobre novos temas. Mas confesso que, durante a azáfama do trabalho, o tempo para leituras extratrabalho é limitado. O verão proporciona-me a oportunidade de ler mais, e de enveredar por temas e estilos diferentes do que normalmente leio. Há livros que não procuramos, mas que nos encontram.

Há livros que não procuram apenas transmitir conhecimento: procuram interrogar os limites do que sabemos. Da Ciência ao Amor – Pelo esclarecimento espiritual, de Luís Portela, é um desses livros. Ao longo das suas páginas, o autor aborda temas difíceis, controversos, mas profundamente humanos, como as experiências de quase-morte, a mediunidade, a telepatia, a psicocinese, as chamadas vidas sucessivas, a auto-cura, a felicidade e a espiritualidade. Confesso que são temas sobre os quais sei pouco – talvez demasiado pouco.

O livro parte de uma constatação que nos faz sentir pequenos: o extraordinário desenvolvimento científico e tecnológico das últimas décadas não resolveu todas as inquietações humanas, que subsistem provavelmente desde que existem seres humanos.

É certo que conhecemos hoje muito mais sobre o corpo, o cérebro e os mecanismos da doença, mas continuamos a confrontar-nos com perguntas essenciais sobre a consciência, a identidade, a morte, a relação com os outros e o sentido da existência. É nesse espaço de interrogação que Luís Portela situa a sua reflexão.

Enquanto cientista, admito que por vezes sou cético sobre estes temas. No entanto, reconheço a importância de manter uma atitude de abertura perante aquilo que ainda não compreendemos. A história da ciência mostra-nos que muitas realidades hoje consensuais foram, em tempos, consideradas impossíveis ou improváveis. O desconhecido não deve ser motivo de medo, nem de desdém. Deve ser, antes, um estímulo à investigação rigorosa, imparcial, e muitas vezes surpreendente.

Uma mente aberta não é uma mente que aceita indistintamente todas as afirmações. É precisamente a ciência que nos ensina a distinguir entre uma possibilidade, uma hipótese, uma interpretação e um facto demonstrado. A ciência não rejeita uma ideia apenas por parecer estranha; exige, porém, que essa ideia seja formulada de modo claro, testada por métodos adequados, confrontada com explicações alternativas e reproduzida por outros investigadores.

Esta distinção é particularmente importante quando falamos de fenómenos associados à parapsicologia. O livro reúne referências a estudos e relatos sobre experiências de quase-morte, transmissão do pensamento, mediunidade e outros fenómenos, defendendo a necessidade de os investigar mais profundamente. Essa proposta pode ser legítima e intelectualmente estimulante. No entanto, o facto de um fenómeno ser relatado, ou de ter sido objeto de investigação, não significa, por si só, que esteja cientificamente comprovado. Aliás, o autor admite controvérsias em relação a vários estudos que cita.

A ciência avança justamente através dessa tensão entre curiosidade e exigência. Deve existir liberdade para colocar perguntas difíceis, mas também rigor para avaliar as respostas. Devemos evitar tanto o dogmatismo materialista – que presume conhecer antecipadamente tudo o que pode existir – como a credulidade – que transforma o desejo de acreditar em prova.

O desafio é ainda maior quando se trata de temas que tocam diretamente a experiência pessoal. A doença, a perda, a morte, a esperança e o amor não são apenas objetos abstratos de estudo. São experiências que atravessam a vida de cada pessoa. Por isso, é compreensível que muitos procurem respostas para além daquilo que a ciência atual, com todo o seu arsenal tecnológico, consegue oferecer. Mas essa procura deve ser acompanhada de responsabilidade, sobretudo quando estão em causa decisões relacionadas com a saúde, o sofrimento ou a vulnerabilidade emocional.

Há, por isso, uma leitura particularmente fecunda de Da Ciência ao Amor: não a de um livro que oferece respostas definitivas para todos os mistérios, mas a de um convite à reflexão. Luís Portela recorda-nos que o conhecimento científico, embora extraordinariamente poderoso, permanece incompleto. Recorda-nos também que o progresso tecnológico não equivale necessariamente a progresso humano, se não for acompanhado por valores como a solidariedade, a compaixão, o respeito e a responsabilidade. A obra apresenta o amor como uma dimensão universal, associada à superação do ego e a uma relação mais harmoniosa com os outros.

Como cientista, não vejo qualquer incompatibilidade entre reconhecer os limites atuais do conhecimento e defender o rigor da investigação. Eu não sou a exceção – houve, e há, cientistas muito maiores do que eu que entenderam esta compatibilidade. Permito-me até admitir que, é justamente porque sabemos que o nosso conhecimento é limitado que devemos investigar mais – e investigar melhor. A humildade é uma virtude científica, desde que não seja confundida com a suspensão do pensamento crítico.

A ciência não tem de responder imediatamente a todas as perguntas. Tem, isso sim, de nos ajudar a formular melhor as perguntas, a separar evidências de convicções e a reconhecer quando uma resposta ainda não está ao nosso alcance. Talvez seja essa a principal lição que podemos retirar deste livro: diante dos grandes enigmas da existência, devemos conservar a curiosidade, a prudência e a capacidade de nos maravilharmos.

Entre a rejeição automática e a aceitação ingénua existe um caminho mais difícil, mas também mais fértil: o caminho da investigação. E é desse diálogo entre a ciência, a reflexão e a experiência humana que poderão nascer respostas mais sólidas para questões que, por enquanto, permanecem em aberto. Quem sabe um dia não viremos a confirmar que “não somos seres humanos a ter experiências espirituais, mas sim seres espirituais a ter experiências humanas”. Talvez nesse momento sejamos capazes de, verdadeiramente, “amar todas as partículas do Todo”, tornando-nos “partículas do Amor Universal”.

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