O director da Central Inteligence Agency, John Ratcliffe, esteve em Cuba, na Quinta-Feira, 14 de Maio, onde se encontrou com o neto de Raul Castro, Raúl Guillermo Rodriguez Castro (de sua elucidativa alcunha “El Cangrejo”, “O Carangejo”), com o ministro do Interior, Lázaro Alvarez Casas, e com o chefe da polícia secreta, general Ramón Romero Curbelo“A Agência” já se tinha empenhado em Cuba de modos menos diplomáticos, como os que constam do fabuloso romance de Norman Mailer Harlot’s Ghost (1991), que li de uma assentada num fim-de-semana de chuva. Além da qualidade da escrita, o livro de Mailer tem tudo o que faz um bom romance de espionagem – intriga, mistério, violência, sexo e máfias várias, políticas e outras.Hoje a realidade é bem diferente. Cuba deixou de ter aquele apelo utópico que tinha para a esquerda revolucionária, que via ali uma gloriosa alternativa ao “social–fascismo” soviético. Como a via na China de Mao, no Cambodja de Pol Pot e noutros paraísos.Findos os “tempos heróicos e idílicos” de Fidel Castro e do “Che” e acabada a União Soviética, Cuba é hoje uma ditadura burocrática que agoniza, explorando e reprimindo o próprio povo. E finda a juventude, a maioria dos revolucionários de então – pelo menos os de cá – reciclaram-se alegremente nos partidos do Centrão e servem hoje as odiosas instituições do imperialismo capitalista.São outros tempos, outros dados, outro jogo. Talvez por isso a nomenclatura cubana tenha recebido o director da abominada “Agency” que terá tido por missão transmitir-lhe um qualquer ultimato de Donald Trump.A operação Southern Spear, que a América levou a cabo em 3 de Janeiro, com a óbvia cumplicidade de altas instâncias do poder venezuelano, parece ser a grande inspiradora desta e de outras intervenções. Com a tutela da economia petrolífera venezuelana, os Estados Unidos passaram a ter uma arma indirecta sobre Cuba, que sobrevivia à custa do petróleo do México e da Venezuela.Ao contrário da “operação especial” do Irão, a detenção de Maduro na Venezuela foi uma operação bem-sucedida; a comprová-lo está o facto de o governo de Cuba, pressionado, ter libertado na Páscoa mais de 2000 presos políticos.Entretanto, em Cuba, os efeitos do embargo energético prosseguem e no dia em que Ratcliffe e a sua comitiva se reuniam em Havana com a fina flor da segurança de Estado cubana, o ministro da Energia e Minas, Vincente de la O’Levy, confessava que o país estava já sem petróleo e sem diesel. E nas ruas de Havana – com a energia limitada a quatro horas por dia – o povo saía à rua, a protestar.Perante a situação, os dirigentes cubanos encaram a hipótese de aceitar a proposta do secretário de Estado americano, Marco Rúbio, de uma ajuda imediata no valor de cem milhões de dólares, a ser entregue, não ao governo cubano, mas directamente à Igreja Católica e a outras organizações fiáveis, que se responsabilizariam pela gestão do dinheiro. Assim, apesar de o presidente cubano, Miguel Díaz-Canel, culpar “o bloqueio genocida dos Estados Unidos” pela situação de Cuba, parece não descartar a proposta de Rúbio.Não restam dúvidas que, a bem ou a mal, conseguir uma mudança em Cuba será um trunfo para Trump junto dos republicanos, antes de Novembro. Mas antes tem de fazer alguma coisa para sair da armadilha do Irão.