Cristiano foi sempre mais inteligente do que os outros

Manuel José Guerreiro

Presidente da Caixa de Crédito Agrícola Mútuo de Torres Vedras

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Cristiano continua a desejar subir à mais alta montanha, ao ponto mais distante de um mundo modelado pela força dos seus sonhos. Quis sempre tudo, mesmo o que parecia impossível, mas nunca quis deixar de ser português, pelo contrário. Marcou o mundo sendo-o, a partir deste lugar encantado que alguns insistem em querer amaldiçoado. Nesse sentido, pode ainda ser tudo, ser ainda mais do que já conquistou, ser um improvável cavaleiro de um Quinto Império idealizado pelo padre António Vieira e por Pessoa.

Não quero escrever sobre o Mundial. Sobre o seu papel na seleção, os golos que não marcou ou se devia jogar mais, menos ou nada. É irrelevante no sentido da reflexão que vos proponho. Nos últimos mais de 20 anos, Cristiano foi apresentado como a antítese do português – por não ser saudosista, fatalista, condescendente ou humilde.

Penso o contrário. Cristiano Ronaldo é profundamente português. Não herdou os genes dos Velhos do Restelo, dos macambúzios, dos invejosos, mas dos outros, dos conquistadores, dos aventureiros, dos ambiciosos, sonhadores e corajosos. Cristiano é mais a epopeia de Camões do que o cinismo (genial) de Eça, é mais a luz de Sophia do que as trevas existenciais de Vergílio ou Torga, é mais Agostinho da Silva do que Eduardo Lourenço.

Marcará mais de mil golos e mudou a maneira como as estrelas comunicam e se oferecem aos olhos dos seus contemporâneos. Mas no futuro poderá ser um farol, se o quiser. Porque Cristiano pode ser tudo o que desejar.

Uma aventura a sua vida. Difícil não acharmos que existem razões para um certo providencialismo. A história da mãe, o caminho que fez para se desfazer do bebé que tinha na barriga, o arrependimento no momento em que lhe pediram para se deitar numa marquesa. E depois a pobreza. O ter vindo para o continente aos 12 anos, sozinho e órfão da presença dos que amava. O alcoolismo do pai, as dificuldades de integração. E o trabalho, a obsessão, a ética de compromisso consigo próprio, as primeiras vitórias, os primeiros ordenados, a ascensão, a ida para Inglaterra, o ser milionário, a primeira bola de ouro e depois todas as outras.

Acumulou dinheiro, mas não se desviou um milímetro da sua estrada: aprendeu línguas, leu livros, conheceu pessoas que o ensinaram a ser mais, tornou-se um homem de negócios sem nunca deixar de ser o que chegava em primeiro ao treino e o que saía em último. Nunca deixou de se sacrificar, de não ter excessos, como se ainda tivesse de conquistar alguma coisa. Enriqueceu, mas continuou a abraçar publicamente a mãe. Ofereceu-lhe tudo como se ela fosse uma princesa, amparou toda a família, o que só um português seria capaz de fazer. Como a partilha do pão, a solidariedade discreta, os que ajuda como parte de um dízimo imaginário que nos está entranhado. Podia ter-se perdido nas tentações materiais em vez de mergulhar em tanques de gelo para recuperar músculos, mas isso é-lhe impossível, não cola.

Cristiano sempre foi mais inteligente do que os outros. Como os melhores portugueses da história, ousou subordinar a vida aos seus sonhos, contaminar-nos com a sua ambição, armadilhar o seu campo de batalha para jamais ser possível deixar de ser general – como ele próprio disse, “muita gente me quer matar, mas eu não deixo”. Não deixa. É um facto. E o jogo ainda está a meio.

manuel.guerreiro@ccamtv.pt

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