O caso dos Cornell 7 – que nasceu da queixa de uma estudante desta universidade dos Estados Unidos relativa a uma violação grupal de que terá sido vítima enquanto era ainda menor de idade – tem tudo para relançar uma nova onda de #metoo, e poderá não ficar apenas pelos EUA.
Não vou discutir o caso em concreto, não o conheço em pormenor e penso que, nesta fase, essa é uma tarefa para os tribunais. Mas o debate que está a gerar tem características distintas face aos anteriores. Desde logo, a Governadora do Estado de Nova Iorque, Kathy Hochul, decidiu falar publicamente sobre o assunto, o que não é comum tão em cima da notícia. E não se limitou a falar, exigiu que a universidade aceitasse uma investigação independente, e designou uma procuradora especial para a investigação criminal, afastando o Procurador do Distrito, Matthew Van Houten, o mesmo que, em 2024, concluiu não haver provas suficientes para sustentar um processo penal.
Começam também a surgir relatos de experiências semelhantes por parte de antigas alunas da Universidade (e de outras universidades), sendo certo que a prevalência de violência sexual em campus universitários dos EUA é um tema antigo, que se vai mantendo frustrantemente estagnado. Existem várias razões para o elevado número de casos, desde a cultura do “terceiro encontro”, que gera expectativas rígidas sobre sexo e conformidade cultural entre pares, à tolerância social e jurídica que é dada aos agressores, sendo muitas vezes aplicadas penas simbólicas, passando por uma forte cultura de consumo de drogas nas Universidades do grupo Ivy League (as mais prestigiadas e mais caras).
A maioria das queixas relaciona-se, porém, com um fenómeno bastante delimitado: as fraternidades. A partir de relatos de vítimas e ex-membros de fraternidades, é possível compreender porquê.
As fraternidades são organizações quase sempre segregadas por género que servem para reforçar laços comunitários entre os estudantes, tornar a experiência universitária mais rica e criar uma estrutura que permita um contacto constante entre os membros alumni.
A importância de pertencer a uma fraternidade é imensa, já que os membros mantêm laços e contactos, gerando uma teia de conexões e acesso que pode ser determinante para o sucesso profissional. Mas as fraternidades são também, e talvez acima de tudo, lugares de iniciação de jovens a um determinado mundo que pretendem manter. No caso das fraternidades masculinas (as problemáticas), esse mundo é o do patriarcado, o mundo onde os homens dominam através do exercício abusivo do poder, da intimidação e da violência. A iniciação começa com rituais de praxe, os quais quase sempre incluem humilhação, e, por vezes, a demonstração de “proezas sexuais”, eufemismo para “conseguir ter sexo com uma colega, nem que seja por meios enganosos ou ilícitos”. Relatos de membros confirmam uma cultura misógina e profundamente hierárquica, com pactos de silêncio e hostilidade para qualquer membro que queira ver os casos investigados e os agressores responsabilizados, ou seja, que veja a mulher como um ser humano.
Ao refletir sobre este caso, que nada mais é do que um reflexo pequeno do patriarcado – um sistema rígido, profundamente hierarquizado, assente na superioridade do domínio masculino, que hostiliza quem se afasta das regras sobre género e dominação – não pude deixar de o relacionar com o debate que teve lugar, esta semana também, na Assembleia da República, em torno da revogação da Lei n.º 38/2018 sobre identidade de género, pela maioria de direita. Tendo ouvido várias partes das audições públicas de médicos, cientistas, pessoas trans e famílias, é notória, por parte dos deputados que apoiam a revogação, a substituição da ciência pela opinião ideológica e a total desconsideração da realidade e das necessidades das pessoas transsexuais.
Se a revogação se mantiver, é quase certo que crianças e adolescentes trans vão sofrer mais, e é também muito provável que mais suicídios, neste grupo de pessoas, não possam ser evitados por falta de cuidados médicos. Ou que alguns jovens optem pelo mercado negro, sem apoio médico, com riscos potencialmente fatais. Ou seja, estamos perante opiniões que matam. Há crianças e jovens que vão morrer, e quando isso acontecer, espero que os senhores deputados estejam igualmente disponíveis para assumirem as suas responsabilidades (políticas).
Sei-o bem porque sou mãe de uma pessoa trans cuja vida foi salva, literalmente, pelos cuidados que a Lei n.º 38/2018 oferece (ainda). O meu filho está salvo, mas os filhos de muitas outras pessoas estarão em maior risco se a revogação se concretizar..
Por falar de ciência e opinião, e debates cheios de cegueira ideológica, convém lembrar, neste início de outubro de 2026, que o tempo não está só esquisito. O que estamos a ver são sintomas, ainda ligeiros, das alterações climáticas provocadas pela ação humana. Embora haja uma quase unanimidade científica em torno da responsabilidade humana pelas alterações (97% dos cientistas), e elevadíssimo consenso em torno das consequências desastrosas se não invertermos o rumo, os maiores líderes e influencers económicos do mundo continuam convictos na promoção da indústria fóssil e destruição de zonas cruciais para o equilíbrio ambiental.
Por exemplo, se Flávio Bolsonaro ganhar as eleições no Brasil a 25/10 (havendo fortes suspeitas de influência americana), é certo que a primeira vítima vai ser a Amazónia e, com ela, todos nós. Enquanto tudo isto se passa, quem tem o poder para mudar de rumo parece continuar à espera de que a solução caia do céu, sendo hoje mais provável que venha a ocorrer uma invasão alienígena (será que nos salva da destruição?) do que um consenso político em prol do futuro da Humanidade.
A esperança absurda numa solução extraterrestre talvez tenha outra explicação, que também envolve o patriarcado e o abuso da ciência (e de uma mulher, pelo menos). Em 1980, Luis Alvarez, físico (prémio Nobel em 1968), junto com o seu filho Walter Alvarez, geólogo, fizeram uma descoberta científica – presença de quantidades de irídio superiores ao que seria de esperar na camada fóssil entre o período cretáceo, dos dinossauros, e o paleogénico, sendo que se trata de um elemento químico raro na terra e mais comum em asteroides – a partir da qual construíram uma teoria para a extinção em massa dos dinossauros (e de 75% de toda a vida na terra), há cerca de 66 milhões de anos: um asteroide que atingiu a terra na zona do Iucatão, México. O asteroide teria provocado um fenómeno semelhante a um inverno nuclear, e, por uma série de outros fenómenos, à extinção.
Porém, esta não é a única hipótese científica que procura explicar o que aconteceu durante o período cretáceo. Outros cientistas, antes, exploravam uma explicação alternativa: a erupção cíclica e intensa, ao longo de cerca de 800 mil anos, de um conjunto extenso de vulcões na Índia, designados por “Deccan Traps”. É que também as lavas vulcânicas contêm quantidades elevadas de irídio.
Porém, nas décadas seguintes, Luis Alvarez (apoiado por um conjunto de cientistas homens) utilizou o seu poder, reputação, e influência, não para patrocinar estudos científicos que clarificassem a questão, mas para perseguir, descredibilizar e arruinar as carreiras de qualquer cientista que o colocasse em causa. Uma dessas cientistas, Gerta Keller, hoje com 81 anos, nunca desistiu e foi insistindo na realização de recolhas e estudos.
Na sua autobiografia científica, Max Planck disse que quando se trata de novas ideias e teorias científicas, o avanço não depende do rigor científico, há que esperar que os opositores morram. E assim foi. Nos últimos anos, cada vez mais estudos têm vindo a confirmar a teoria vulcânica para a extinção do período cretáceo, incluindo uma análise computacional – dois cientistas americanos quiseram que os dados brutos fossem analisados sem influência de pré-juízos humanos – que concluiu pela coerência científica desta explicação.
Isto é relevante porque influencia fortemente a forma como nós todos pensamos em fenómenos de extinção em massa. A teoria do asteroide foca a nossa atenção para algo estranho à terra, extraterrestre, e gera a convicção de que as extinções em massa ocorrem em pouco tempo. A teoria vulcânica diz-nos que a extinção levou milhares de anos e foi o resultado do efeito cumulativo de 800 mil anos de erupções vulcânicas que inundaram a atmosfera de gases com efeito estufa.
O asteroide também terá tido impacto, claro, mas essencialmente localizado na zona das américas, e sozinho, sem os 800 mil anos de acumulação de gases tóxicos, não teria provocado uma extinção em massa. E é relevante também porque é mais um exemplo do efeito opressor do patriarcado: até na ciência, estruturas hierárquicas rígidas, cumplicidades acríticas e utilização abusiva do poder existem, e podem gerar graves danos, à ciência, e à humanidade.
Agora notem: estima-se que as “Deccan Traps” expeliram entre 15 e 65 milhões de toneladas de gases com efeito estufa por ano, ao longo de mais de 800 mil anos, até conseguirem destruir 75% de toda a vida terrestre, incluindo animais que existiram mais de 165 milhões de anos. Nós estamos a emitir, desde os anos 90, 22 MIL milhões, e atualmente 53 a 60 MIL milhões de toneladas de gases com efeito estufa por ano, e vamos continuar, sendo que apenas existimos há cerca de 300 mil anos. Em 500 anos, já causámos a extinção de 10% de animais e plantas.
Para a nossa extinção não vão ser precisos 800 mil anos, nem mudanças de temperatura na ordem dos 5 graus (que terão ocorrido no cretáceo). Se alcançarmos um aumento de temperatura de 1,5 graus – que parece inevitável neste momento – as consequências já serão trágicas. E, mesmo assim, pouco ou nada estamos a fazer. Parece que aceitámos coletiva e resignadamente que seremos das últimas gerações de humanos, pelo menos num mundo semelhante ao nosso.
Não deixa de ser curioso que para a maioria das pessoas tenha sido mais fácil acreditar que um único asteroide caído no México tenha provocado a extinção em massa de 75% da vida na terra, mas não consigam acreditar, mesmo perante todas as evidências, na responsabilidade humana pelas alterações climáticas (e suas consequências a médio e longo prazo), que há mulheres a serem sistematicamente vítimas de crimes sexuais, ou que há pessoas que nascem no corpo errado. É pena que a realidade não dependa da fé, porque as consequências de tudo isto estão e vão ser sofridas também por todos nós, quer acreditemos nelas, quer não.