Covid-19 e o revisionismo pandémico

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Cada pessoa tem direito
à sua própria opinião, mas não
aos seus próprios factos.

Daniel Patrick Moynihan

Destacado político, senador,
sociólogo e diplomata
norte-americano (1927-2003)

A pandemia de covid-19 durou 1150 dias, entre 2020 e 2023. Apesar do seu impacto, assistimos ciclicamente à repetição das mesmas narrativas erradas e manipuladas, baseadas em informação falsa ou descontextualizada, que põem em causa, por exemplo, a existência do vírus, a validade científica dos procedimentos e as suas repercussões. Este revisionismo pandémico é extremamente perigoso, por minimizar e desvalorizar tudo o que foi feito, nomeadamente as dezenas de milhões de vidas salvas, e por comprometer a aprendizagem e a preparação para futuros eventos semelhantes.

Uma das áreas mais atacadas é a vacinação contra a covid-19, a medida que mais vidas salvou e que foi determinante para o fim da pandemia. Muitos dos ataques baseiam-se nos registos de eventos adversos nas bases de dados de farmacovigilância. Qualquer pessoa pode notificar voluntariamente um evento, sendo essa notificação uma obrigação regulamentar para a indústria farmacêutica. Nos países da União Europeia, esta vigilância é realizada por peritos altamente qualificados, igualmente responsáveis pela monitorização da segurança de todos os outros medicamentos.

O registo não pressupõe a existência de uma relação de causalidade. É expectável que ocorram, nos vacinados, os mesmos acontecimentos que já ocorriam, com igual frequência, antes da vacinação. Por exemplo, acidentes, outras doenças, internamentos ou, infelizmente, mortes. São eventos que sempre aconteceram e que continuarão a acontecer, tanto mais que cerca de 95% dos portugueses foram vacinados.

É errado pensar que alguém sem formação específica consiga descobrir, em poucos minutos, algo que inúmeros peritos e cientistas com anos de experiência não identificaram. Serão ignorantes ou incompetentes os cerca de 50 cientistas do Instituto Karolinska, na Suécia, responsáveis pela atribuição do Prémio Nobel da Medicina à tecnologia de RNAm utilizada nas vacinas contra a covid-19?

Apesar das centenas de estudos robustos que comprovam a segurança das vacinas, há outros dados que, pela sua abrangência, corroboram a mesma conclusão. É o caso do relatório 10 Anos das Doenças Cérebro e Cardiovasculares em Portugal (2013-2023), divulgado no mês passado pela Direção-Geral da Saúde, que confirma uma redução significativa da mortalidade por estas doenças, tendo a proporção de óbitos atingido, em 2023, o valor mais baixo dos últimos 30 anos.

Trata-se de mais uma evidência da ausência de relação entre a vacinação e o aumento de doenças cardiovasculares e, sobretudo, da demonstração de que quem afirma o contrário não constitui uma fonte fiável de informação nem merece confiança.

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