A pergunta partiu de Laborinho Lúcio e a 27.ª edição das Correntes d’Escritas tentou responder numa das mesas. Enquanto existir imaginação, o escritor pode tudo, já se sabe.Os escritores são mentirosos. Eu fui diagnosticada como mentirosa aos 7 anos.No meu relatório escolar ficou escrito, com a gravidade clínica de quem identifica um desvio preocupante, a seguinte frase: “A Patrícia sofre de excesso de imaginação.”Excesso. Como se fosse febre. Ou uma perturbação a vigiar. E porquê perguntam vocês? Porque perante quatro patinhos de plástico disse que poderiam ser quatro ou mais, dependia se existia algum patinho grávido. A professora queria que eu aprendesse os números, eu queria uma história com futuro.Nunca vi num relatório escolar a frase: “Este aluno sofre de excesso de obediência” ou “esta criança revela preocupante ausência de pensamento próprio.”O que inquieta não é a imaginação. O que inquieta é aquilo que ela pode pôr em causa.Eu via coisas. Inventava episódios inteiros a partir de um detalhe mínimo. Um colega que faltava tornava-se vítima de um rapto internacional. Uma conversa banal escondia conspirações. Um simples recreio acabava com dragões.Para mim fazia sentido. O mundo parecia-me sempre maior do que aquilo que me mostravam. Os adultos não achavam graça.Felizmente, tive um tio-avô que me chamou ao seu escritório para me dizer algo que mudou tudo: “Isso não é uma doença. É um superpoder. Mas tens de o proteger. Porque os adultos perdem-no.” Eu acreditei nele.E passei a observar os adultos com alguma desconfiança. Pareciam-me todos demasiado certos da realidade. Muito seguros de que as coisas eram apenas aquilo que eram. Muito confortáveis no literal. Eu achava que lhes faltava qualquer coisa. Ainda agora acho o mesmo e tenho 55 anos de idade.Continuo a imaginar. Posso estar a atravessar a Ponte 25 de Abril, tranquila, e de repente imagino um tsunami a subir o Tejo. Imagino a terra a tremer como em 1755. Imagino o carro a perder estabilidade. O carro da frente a cair no abismo e o homem, coitado, acabara de ganhar o Euromilhões. Sinto suor frio a cada passo. Nada acontece, claro, mas o cenário existe inteiro na minha cabeça.E é aqui que começa a pergunta que vos trago hoje:- quando um escritor imagina um tsunami onde há céu azul, está a mentir? Ou está a exercitar uma capacidade profundamente humana de antecipar o que ainda não aconteceu?No uso comum, a mentira é engano deliberado. É manipulação. É ocultação com benefício próprio, mas a mentira literária é outra coisa. Quando abrimos um romance, sabemos que aquilo não aconteceu. Sabemos que aquelas personagens são construídas. E, ainda assim, emocionamo-nos. Identificamo-nos. Sofremos com elas.Não há engano. Há um pacto.A escritora Ursula K. Le Guin escreveu que a imaginação é uma mentira que diz a verdade. A literatura não mente para esconder. Mente para revelar. E talvez o problema nunca tenha sido o excesso de imaginação. Talvez as sociedades precisem de adultos previsíveis. Adultos que aceitem o mundo tal como lhes é apresentado. Adultos que não imaginem tsunamis quando atravessam pontes, porque imaginar tsunamis é imaginar falhas estruturais. Talvez...A imaginação é perigosa, porque quem imagina alternativas começa a questionar inevitabilidades. E quem questiona inevitabilidades torna-se incómodo.Vivemos dias saturados de mentiras. Mentiras fabricadas, amplificadas, interessadas. Mentiras que não se assumem como tal. Que exigem adesão imediata. Que dispensam pensamento. Essas mentiras não pedem imaginação. Pedem submissão.A mentira literária é o contrário disso. Diz-nos desde o início: isto é ficção. E nessa transparência há uma honestidade rara. O escritor não decalca a realidade. Não é um papagaio do que impera. É o seu avesso. Quando constrói uma distopia, não está a prever o futuro como um oráculo. Está a ensaiá-lo.Margaret Atwood diz que a ficção especulativa não prevê o futuro, previne-o.A imaginação é uma forma de vigilância ética. O escritor pergunta: e se isto continuar? E se este discurso crescer? E se este silêncio se normalizar? Talvez o escritor seja tolerado precisamente porque a sua mentira está confinada aos livros.Imaginemos por um momento que a imaginação literária contaminava verdadeiramente o espaço público. Imaginem cidadãos capazes de imaginar consequências a longo prazo. Capazes de imaginar o impacto real das decisões antes de elas produzirem vítimas. Capazes de imaginar o sofrimento do outro antes de ele acontecer.Isso seria profundamente subversivo. Talvez o problema não seja que os escritores mintam. Talvez o problema seja que só os escritores assumem que o fazem. Ao escritor não se exige verdade factual. Exige-se lucidez. Exige-se responsabilidade na construção de mundos que ampliam o pensamento em vez de o estreitar.Também na literatura portuguesa encontramos esta consciência da limitação e da abertura. Agustina Bessa-Luís lembrava que toda a obra escrita é expressão de um conhecimento limitado, mas sempre aberto a novas particularidades. A literatura não fixa verdades. Não encerra sentidos. Assume-se como provisória. E é precisamente essa condição que a torna vital.Volto então à pergunta inicial de Laborinho Lúcio:Até onde pode mentir o escritor?Pode mentir até onde a sua imaginação o levar, mas não pode abdicar da sua honestidade interior. Há uma diferença radical entre inventar e manipular. Entre criar cenários para pensar e distorcer factos para dominar. Quando imagino o tsunami na ponte, não estou a fabricar uma verdade paralela. Estou a exercitar a capacidade de prever, de sentir, de questionar fragilidades.Talvez o meu relatório escolar estivesse errado. Não era excesso de imaginação. Era intensidade de observação. Era recusa em aceitar o mundo apenas na sua superfície.E talvez o maior risco não seja o escritor mentir. Talvez o maior risco seja deixarmos de imaginar, porque quando deixamos de imaginar, deixamos de prever. E quando deixamos de prever, aceitamos tudo como inevitável. Os escritores continuarão a mentir. E ainda bem, desde que continuem a fazê-lo à vista de todos, com imaginação suficiente para incomodar. E com lucidez suficiente para não confundir criação com manipulação. Se isso for um superpoder, eu escolho mantê-lo. Espero que vocês também. (Texto proferido nas 'Correntes d’Escritas', na Póvoa de Varzim, a 27 de fevereiro de 2026)