Como responder ao populismo da direita?

Jaime Nogueira Pinto

Politólogo e escritor

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O que aconteceu na América com Graham Platner não foi aqui notícia, nem sequer mereceu o habitual painel de especialistas. Talvez um resumo da história explique porquê.

Nas eleições de Novembro, Platner concorreu pelo Estado do Maine às primárias do Partido Democrata para um lugar no Senado de Washington. Tinha tudo para ganhar: era ex-Marine, combatente no Iraque e no Afeganistão, trabalhava em segurança privada e era dono de uma pequena empresa de produção de ostras.

E foi agitando a bandeira da luta contra a oligarquia e com o apoio do político e intelectual-chave da esquerda americana, Bernie Sanders, senador pelo Vermont, e de Elisabeth Warren, senadora pelo Massachusetts, que, em 11 de Junho, Platner saiu vencedor.

Até que veio o escândalo… e com as revelações de violência sexual a escolha de Platner para se bater com a titular do cargo, a republicana Susan Collins, ficou comprometida. Entre os barões do partido o entusiasmo esmoreceu e Sanders e Warren retiraram-lhe o apoio. Na quarta-feira, 8 de Julho, pressionado pelo aparelho partidário e pelos media, Platner acabou por desistir, embora negando tudo e descrevendo-se como vítima do sistema.

Era uma promissora carta populista que os democratas esperavam lançar e a sua desistência, por razões de força maior, evidencia bem o actual dilema da esquerda americana, ou mesmo do centro-esquerda euro-americano:

Que fazer perante a vaga nacional-popular (“populista”, “de extrema-direita”, de “direita radical”, ou até “fascista”, para os mais exaltados) que está a varrer as urnas desde a América do Sul até à França da 5.ª República? Imitá-la, como o provável líder dos Trabalhistas ingleses, Andy Burnham, que pegou nos “temas tóxicos” do Reform Party para o combate? Ou endurecer o discurso “anti-migratório”, como, em França, Bruno Retailleau e Édouard Philippe, para combater, à direita e pela direita, Marine Le Pen?

Foi em Novembro de 2016, com a surpresa Trump, que os democratas se confrontaram de chofre com o problema; quando, inesperadamente, o excêntrico empresário do real estate pegou na causa dos “deixados para trás”, dos americanos médios, dos trabalhadores brancos, dos “deploráveis” com quem já ninguém falava desde Nixon e Reagan, e venceu a sistémica Hillary Clinton. E o problema persiste.

Entretanto, há já na esquerda norte-americana outros trunfos prontos a ir a jogo. Como o governador da Califórnia, Gavin Newson, um liberal-chique que aposta tudo nos “jovens brancos” capturados por Trump em 2024, contando desviá-los para o redil democrata. Ou como a radical socialista Alexandria Ocasio-Cortez, que, sendo “afro-latina”, tem a vantagem de transportar na pele parte do programa. Ou, claro, como o actual mayor de Nova Iorque, Zhoran Mamdani, o muçulmano negro que, em Novembro de 2025, bateu o veterano André Cuomo.

Terá sido perante o esforço desta esquerda para recuperar o pastoreio (ou proceder ao extravio) das suas ovelhas que Donald Trump recorreu a uma inesperada retórica “anti-comunista”, aparentemente deslocada, depois do fim da União Soviética no Natal de 1991 e da conversão da China ao capitalismo autoritário de partido dominante?

Uma coisa é certa: o discurso de Trump veio depois da vitória de um trio de “Mamdani boys”, vencedores de primárias com a narrativa neo ou pós-humanista da nova Esquerda - políticas de género, anti-ICE e pró-Palestina.

Trump é excessivo e pode até ser errático, mas não costuma dar ponto sem nó.

O autor escreve de acordo com a antiga ortografia

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