Como controlar o Fittipaldi que há em nós?

Pedro Sequeira

Editor-executivo do Diário de Notícias

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Aquele rapaz super simpático e educado, sempre sorridente ao dizer bom dia, mas que quase rasga as vestes quando alguém buzina atrás de si no trânsito, transformando-se num autêntico Rambo das estradas. Aquele senhor sempre tranquilo, que no fim de semana gosta de passar umas horas com amigos no café, mas que, entre uma rodada e outra, não hesita em sentar-se ao volante e acelerar que nem o seu ídolo de infância, o piloto argentino Emerson Fittipaldi, direito a casa. Ou aquela colega de trabalho sempre tão meticulosa, atenta ao pormenor, mas que é capaz de entrar numa rotunda ou mudar de faixa sem sequer olhar para o lado para ter a certeza que não vem ninguém.

Provavelmente, conhece alguém que encaixa nestes perfis. Ou até se revê num deles. Não gosta disso, e até tem noção do perigo que representa, mas continua a dar por si a repetir o erro. Sim, é certo, não está sozinho/a nesse comportamento. E é por isso que o problema é maior.

O combate à sinistralidade rodoviária em Portugal continua a marcar passo. É certo que há cada vez mais campanhas de sensibilização e ações nacionais de fiscalização, como a que arrancou esta terça-feira (Taxa Zero ao Volante). Há também mais radares de velocidade e mais estatísticas que ajudam a perceber a dimensão e as principais fontes do problema (um exemplo, divulgado agora pela Autoridade Nacional de Segurança Rodoviária, é o de 28 em cada 100 vítimas mortais em acidentes apresentarem, após autópsia, uma taxa de álcool no sangue superior ao limite legal).

No entanto, tragicamente, apesar de o aumento do preço dos combustíveis aconselhar a maior moderação ao volante, o número de mortes continua a subir (411 até final de outubro, mais 41 do que no período homólogo do ano passado, adiantou o CM citando citando dados da ANSR).

O ministro da Administração Interna, Luís Neves, já utilizou por mais de uma vez a expressão “guerra civil” ao comentar o que se passa nas estradas nacionais e, na passada sexta-feira, no âmbito da discussão na especialidade do Orçamento do Estado para 2027, anunciou que, em janeiro, vai voltar a atuar em Portugal a Brigada Trânsito da GNR, quase 20 anos após ser extinta.

Mais fiscalização e mais visibilidade das autoridades ajudam, sem dúvida, a mitigar o problema. Mas está visto que não chega para o resolver, até porque é impossível vigiar o comportamento de todos os que andam na estrada. Este é um caso típico em que a solução resulta, em primeiro lugar, da consciência individual de cada condutor. Na disciplina que tem de ter para controlar comportamentos de risco ao volante.

Não faltam exemplos de como numa fração de segundo se despedaçam vidas na estrada. A melhor forma de evitar fazer parte destas estatísticas depende de si. Pode parecer um chavão, mas continua a ser uma frase que vale a pena repetir.