Como a política anti-imigração vai custar aos EUA a liderança em IA

Jorge Costa Oliveira

Consultor financeiro e business developer

Publicado a

Um recente, e abrangente, relatório do Instituto Stanford para a Inteligência Artificial Centrada no Ser Humano (HAI) – o Artificial Intelligence Index Report 2026 – vem revelar dados muito interessantes sobre a evolução da Inteligência Artificial (IA).

Este relatório do Instituto Stanford mostra um ponto de viragem histórico: a IA deixou de ser uma tecnologia emergente para se tornar uma infraestrutura global, mas esse crescimento está a criar uma lacuna perigosa entre o progresso técnico e a capacidade de adaptação humana.

Vale a pena sumariar alguns dos pontos principais do mencionado relatório, por áreas temáticas.

1. Adoção e impacto económico

  • Velocidade recorde: A IA generativa atingiu 53% de adoção na população global em apenas três anos, superando o ritmo de adoção histórico do computador pessoal e da internet.

  • Porém, os EUA ocupam o 24.º lugar global na adoção real de IA, com apenas 28,3%. Atrás dos EAU, de Singapura e de países que a maioria dos americanos dificilmente conseguiria encontrar num mapa.

  • Investimento massivo: O investimento privado global em IA disparou para 581,7 mil milhões de dólares em 2025, com os EUA a liderarem de forma esmagadora (cerca de 23 vezes mais investimento do que a China, embora a diferença seja menor, mas ainda muito grande, quando se incluem os fundos governamentais orientados nas despesas chinesas em IA).

  • Mudança no mercado de trabalho: Existe um fenómeno paradoxal. Enquanto a produtividade aumentou entre 14% e 26% em várias áreas, o emprego para desenvolvedores juniores (22-25 anos) caiu 20% desde 2022, sugerindo que a IA está a substituir as funções de entrada (aprendizagem) na programação.

2. Desempenho técnico e geopolítica

  • Capacidade de programação: Em benchmarks de codificação (como o SWE-bench), a IA saltou de 60% para quase 100% da linha de base humana em apenas um ano.

  • China vs. EUA: A vantagem técnica dos EUA diminuiu drasticamente. Em março de 2026, os modelos da Anthropic (EUA) lideravam sobre os modelos chineses (como os da DeepSeek) por uma margem mínima de apenas 2,7%. A China agora lidera em volume de patentes, publicações e robótica industrial.

  • Agentes de IA: Houve um salto na eficácia de “agentes” (IA que executa tarefas em sistemas operativos), passando de 12% para 66% de sucesso em tarefas complexas de computação.

3. Educação e sociedade

  • Estudantes vs. professores: 80% dos estudantes universitários usam IA regularmente para tarefas académicas, mas apenas 6% dos professores consideram que as políticas das suas instituições sobre o uso de IA são claras.

  • Crise de confiança: Existe um abismo de perceção. Enquanto 73% dos especialistas acreditam que a IA terá um impacto positivo no emprego, apenas 23% do público geral partilha essa visão. O medo e a ansiedade pública estão a aumentar à medida que a tecnologia se torna mais autónoma.

4. Riscos, segurança e ambiente

  • Incidentes em alta: O número de acidentes e incidentes éticos reportados com IA (deepfakes, fraudes, discursos de ódio) subiu 55% num ano. A IA responsável não está a acompanhar a capacidade de IA, com os padrões de segurança a ficarem atrasados

  • Custo ambiental: O relatório destaca o impacto ecológico severo. O treino do GPT-4 emitiu cerca de 72.816 toneladas de CO2 (mais de mil vezes o que um carro emite em toda a sua vida útil) e o consumo de água para manter os servidores de modelos avançados é comparável ao consumo de milhões de pessoas.

Conclusão do relatório

O mencionado relatório de 2026 do Instituto Stanford conclui que a IA não está a estagnar, mas sim a acelerar. O grande desafio atual não é mais “o que a IA consegue fazer”, mas sim como criar sistemas de governança, confiança e segurança que consigam acompanhar a velocidade da inovação, evitando que a sociedade e o mercado de trabalho sofram ruturas incontroláveis.

Há um ponto do relatório que vale a pena escalpelizar mais detidamente.

É quando nele se refere que “o número de investigadores e programadores de IA que se mudaram para os EUA caiu 89% desde 2017. O declínio está a acelerar, com uma queda de 80% apenas no último ano. Os EUA ainda albergam mais talento em IA do que qualquer outro país, mas estão a atrair novos talentos à taxa mais baixa em mais de uma década.” (página 16 do relatório)

A que se deve esta queda de 89% desde 2017 e 80% em 2025?

Com base nas tendências apontadas pelo relatório Stanford HAI e por analistas de mercado (como a MacroPolo e o CSET), as razões principais para a redução da fixação de talentos estrangeiros de IA nos EUA são as seguintes.

1. Custo de vida e saturação

O custo de vida exorbitante em centros como São Francisco e Seattle, aliado a despedimentos no setor tecnológico em 2023 e 2024, reduziu o “sonho americano” para muitos jovens programadores, que agora veem mercados emergentes ou os seus países de origem como opções mais estáveis e com melhor qualidade de vida.

2. Descentralização do ecossistema de IA

Já não é estritamente necessário estar em Silicon Valley para estar na vanguarda da IA:

  • Polos alternativos: Cidades como Toronto, Londres, Paris, Telavive e Lisboa tornaram-se centros de excelência com políticas de imigração muito mais favoráveis para “nómadas tecnológicos” e investigadores de elite.

  • Trabalho remoto: A normalização do trabalho remoto e de equipas distribuídas permite que programadores de alto nível trabalhem para empresas americanas sem terem de enfrentar o processo de imigração para os EUA.

3. Geopolítica e tensões de segurança nacional

O clima político entre os EUA e a China (como a China Initiative do Departamento de Justiça, embora formalmente encerrada, e as restrições à exportação de semicondutores avançados) criou um ambiente de receio.

  • Muitos investigadores chineses sentem-se sob suspeita ou enfrentam dificuldades em colaborar internacionalmente, o que os desencoraja de se mudarem para os EUA ou os incentiva a sair – cada vez mais têm vindo a retornar à China.

4. Ascensão da China como potência de formação e retenção

O relatório do HAI e os dados do Global AI Talent Tracker da MacroPolo mostram uma mudança drástica:

  • Educação de elite: A China produz agora uma percentagem muito maior dos melhores investigadores de IA do mundo – MacroPolo refere que c. 40% dos especialistas em IA em centros de investigação de topo nos EUA provêm da China, enquanto Jensen Huang, o CEO da Nvidia afirma que 50% são chineses.

  • Retenção interna: Enquanto em 2017 a grande maioria dos investigadores chineses permanecia nos EUA após o doutoramento, hoje um número crescente regressa à China devido ao investimento massivo do governo chinês em laboratórios de IA e salários competitivos.

5. Políticas de imigração e dificuldades de visto

A razão mais citada em todos os relatórios é o sistema de imigração dos EUA, que muitos consideram obsoleto para a era tecnológica.

  • Dependência de estudantes estrangeiros em mestrados relacionados com IA: A maioria dos estudantes de pós-graduação em áreas relacionadas com a IA não reside nos EUA. Isto é especialmente verdade nos mestrados relacionados com software de IA, onde 67% dos graduados não residem no país. No entanto, devido à revogação dos vistos de estudante pelo governo americano e ao desencorajamento da matrícula de estudantes internacionais, prevê-se uma queda ainda maior no número de graduados não-residentes nos próximos anos.

  • Atrasos nos Green Cards: Para investigadores de certas nacionalidades (especialmente da China e da Índia), o tempo de espera pelo direito a residência permanente pode demorar décadas, levando-os a escolher países com processos mais ágeis, como o Canadá ou o Reino Unido.

  • Limites de vistos H-1B: A incerteza quanto à obtenção e renovação de vistos de trabalho cria uma barreira significativa. Mais recentemente, a Administração Trump endureceu a política de controlo migratório, mais especificamente no que tange ao visto H-1B, que custa agora aos empregadores 100.000 dólares por trabalhador contratado.

Embora as declarações dos responsáveis de empresas de IA americanas sejam amiúde feitas para cair nas boas graças do governo americano – um importante cliente e seu aliado na batalha pela não-regulação do setor – CEO como Sam Altman (OpenAI) e Jensen Huang (Nvidia) expressaram apoio público ao aumento das taxas do visto H-1B e ao endurecimento das regras. Existe alguma lógica por trás deste apoio:

  • Filtro de elite: Ao elevar o custo, o governo desincentiva o uso do visto H-1B para funções técnicas genéricas (frequentemente usado por empresas de outsourcing), reservando as vagas para talentos “excecionais” que empresas como a OpenAI, a Anthropic e a Nvidia podem pagar sem hesitar.

  • Prioridade no salário: O novo sistema de escalonamento salarial beneficia quem paga mais. Como os investigadores de IA de topo recebem salários muito acima da média, estas empresas acabam por ter prioridade na aprovação dos vistos em relação a empresas de TI tradicionais.

​Não obstante este apoio de alguns gestores de empresas tecnológicas, o facto é que os números constantes do relatório Artificial Intelligence Index Report 2026 ​são claros e mostram que a nova política de linha dura anti-imigração desta Administração Trump piorou muito a situação:

  • Redução de mestrandos estrangeiros: Os EUA dependem significativamente de estudantes estrangeiros para os setores científico e tecnológico. O progressivo endurecimento das políticas de imigração norte-americanas está crescentemente a fazer diminuir o número de estudantes estrangeiros em matérias essenciais para o desenvolvimento da IA.

  • Redução de profissionais altamente qualificados no setor tecnológico: Com novas restrições à imigração criadas pela atual Administração Trump e um clima geral de intimidação e perseguição de imigrantes, em especial não-caucasianos, verifica-se uma queda acentuada nos investigadores e programadores de IA ao abrigo do visto H-1B (-80%) e uma exportação de cérebros.

A situação é mais grave em relação a especialistas em IA provindos da China. Além de o mercado americano já não ser tão atrativo como era há uma década, a desconfiança a roçar o assédio por parte das autoridades americanas por razões de rivalidade geoestratégica e as crescentes dificuldades em obter o direito de residência [temporária] nos EUA, estão a contribuir para que esses especialistas chineses fiquem na China ou ponderem ir para a Europa.

O que acima se deixou dito em relação a especialistas chineses também se aplica, em boa medida, a especialistas indianos.

A Administração Trump promove ativamente a destruição do pipeline de talento que assegurou durante décadas a supremacia tecnológica americana.

Entretanto, Wall Street parece achar que a IA é uma corrida de capex e músculo financeiro. Porém, na realidade, antes de tudo o mais, é uma corrida de talento.

Em breve ficará claro que os biliões que a Microsoft, a Meta, a Google e outras empresas tecnológicas gastam – assumindo que sucessivas vagas de investigadores de IA continuarão a aparecer – está assente num pressuposto que está a desmoronar-se.

Atento o relevantíssimo contributo do setor de IA para a economia americana, a manutenção da presente política draconiana em matéria de combate a todo o tipo de imigração, incluindo a de imigrantes altamente qualificados para o setor tecnológico não pode deixar de ter consequências económicas graves, sendo provável que essa perda de massa crítica em IA leve a uma progressiva perda de competitividade das empresas tecnológicas dos EUA e, provavelmente, à perda da liderança na qualidade dos produtos de IA.

É por isso que, cada vez mais, empresas tecnológicas americanas estão a deslocalizar funções de suporte e engenharia de software menos crítica para o Canadá e o México (por razões de nearshoring e para beneficiarem do mesmo fuso horário do Pacific Standard Time de Silicon Valley) e a criar centros de I&D de IA em países europeus com políticas de imigração menos draconianas quanto a trabalhadores altamente qualificados no setor tecnológico.

O Governo Português devia prestar atenção e focar as baterias na captação desse investimento e desses centros de I&D de IA. É por aqui que passa a possibilidade de Portugal criar um hub de IA, não é pela instalação de centros de dados sem qualquer valor acrescentado para o setor tecnológico nacional.

Diário de Notícias
www.dn.pt