Como a corrida espacial é também uma corrida à verdade

O que foi o desinteresse da 'Apollo 13' contrasta com a atual fragmentação digital, mas hoje, como então, apenas uma conclusão é eticamente possível: a liberdade de expressão e de informação é o único combustível capaz de vencer o tédio e a mentira estatal.
Ricardo Simões Ferreira

Editor-Executivo Adjunto do Diário de Notícias

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Em abril de 1970, Blanche Lovell, mãe do comandante da Apollo 13, Jim Lovell, procurava o filho na TV. No realista filme de Ron Howard (de 1995), a cena é pungente: num lar de idosos, ela espera ver o lançamento histórico, apenas para descobrir que as grandes redes – ABC, CBS e NBC – tinham decidido que ir à Lua se tornara “rotina”, sem direito a transmissão direta. O mundo só voltou a ligar a televisão quando o desastre aconteceu e a luta pela sobrevivência se tornou entretenimento.

Esta cena não foi apenas um recurso dramático; é o retrato de um mundo de “gatekeepers”, dos que decidem o que é que o “povo” tem o direito de ver. Na era Apollo, quando os guardiões da atenção decidiram que o espaço era aborrecido, o espaço deixou de existir para o público.

Hoje, apesar de muitos ligados à profissão suspirarem de saudades por esses tempos, vivemos o total oposto. É por isso que a “nova” corrida espacial, protagonizada nos últimos dias pela missão Artemis, mas também pela SpaceX, não depende da permissão de qualquer editor ou diretor de um órgão de comunicação social. Ela vive na ciberesfera e na fragmentação de nichos que, somados, formam audiências globais que os meios tradicionais já não conseguem ignorar.

Mas é aqui que a exploração do vácuo se cruza com a exploração da verdade. Muitos olham para o panorama atual das redes sociais – povoado por trolls, flatearthers e teorias da conspiração – como uma ameaça à ciência. Refletindo este pensamento, voltou agora a “viralizar” nas redes sociais (tanto para criticar, como para elogiar, consoante…) um discurso na Assembleia-Geral da ONU, de setembro de 2022, da então primeira-ministra da Nova Zelândia, Jacinda Ardern, a defender que a desinformação deve ser tratada como uma “arma de guerra”. Para ela, a liberdade de expressão sem controlo estatal ou institucional conduz ao “caos, impedindo a ação coletiva” em “temas como as alterações climáticas”.

Ardern personifica – a sua governação refletiu-o, aliás – a visão daqueles que acreditam que apenas as elites benevolentes são capazes de filtrar a realidade para as massas e que a sua tutela é necessária para evitar o desastre. E são tantos que seguem esta filosofia… Mas a História ensina-nos que, sempre que o Estado tenta decidir o que são “factos” e “fake news”, ele caminha, sempre, para o modelo do jornal Pravda: uma verdade oficial que serve apenas para proteger o poder. O modelo soviético ruiu precisamente porque eliminou os mecanismos de feedback: sem o “ruído” da crítica e do erro exposto, o sistema tornou-se frágil e cego, e apodreceu por dentro em meia dúzia de dias (literalmente).

No mercado das ideias, a verdade funciona exatamente como o preço se fixa num mercado livre, como explicou Smith. Pode haver especulação e bolhas de mentiras, mas a pressão gravitacional da realidade acaba sempre por trazer a informação de volta aos factos. É só dar-lhe tempo. O “nicho” digital de hoje – os entusiastas que analisam cada imagem da Starship em alta definição, as imagens enviadas da Orion – é o exército de verificadores de factos. E eles são mais e muito mais bem informados do que os flatearthers que “trolam” essa mesma informação. Eles não pedem permissão para conferir a telemetria, pelo contrário, obrigam as instituições à transparência, através da vigilância constante.

Por outro lado, os trolls e os ignorantes que bombardeiam a opinião pública são o preço a pagar pela liberdade. E, vendo bem, é um preço barato. Não é da benevolência do burocrata (ou da “gentil” tutela de Ardern) que esperamos a verdade. Pelo contrário. Ela só poderá vir da competição feroz entre quem quer ser ouvido. A tentativa de criar “bolhas de segurança” estatais apenas atrofia o músculo crítico do cidadão. Uma sociedade que nunca é desafiada pela mentira torna-se incapaz de reconhecer a verdade.

A corrida espacial atual é, assim, uma corrida à verdade de forma descentralizada. Os princípios de Smith (e apurados por Thomas Sowell) mostram-nos que o mercado de ideias, mesmo na sua "selvajaria", é mais resiliente do que qualquer Ministério da Verdade. Até porque a Física não se importa com decretos estatais ou narrativas protegidas. O foguetão ou descola ou explode. E, num mundo de informação livre, haverá sempre milhões de olhos atentos para testemunhar o facto, garantindo que a verdade não seja propriedade de ninguém, mas um real património de todos.

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