Comentadores ou opinadores?

Eduardo Barroso

Cirurgião

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Foi neste jornal, a convite do saudoso Pedro Rolo Duarte (PRD), que há mais de 30 anos comecei a escrever umas crónicas semanais no então DNA. Apareceu em minha casa e desafiou-me para escrever sobre charutos! Fumar um bom charuto, forçosamente cubano, foi durante algumas décadas um dos grandes prazeres da minha vida. Mas disse ao Pedro: sobre charutos consigo escrever meia dúzia, depois esgota-se o tema, se queres uma colaboração longa (na altura falou-me de um ano), proponho que alargues o tema, escreverei sobre Prazeres da vida.

E assim foi, escrevi durante anos, sem nunca falhar um sábado, não só sobre o prazer de fumar um bom charuto, mas sobre muitos outros pequenos e grandes prazeres da vida. Da compilação dessas crónicas resultou, editado pela Difel em 1988, um pequeno livro, cuja capa era a cinta do charuto Cohiba, que em vez do nome do charuto tinha a palavra Prazeres. Não quis direitos de autor. Foi um enorme sucesso editorial, fui sabendo desse sucesso porque a Misericórdia de Cascais, todos os anos me agradecia o dinheiro que recebia.

PRD conhecia-me apenas porque me via na SIC, como adepto do Sporting a opinar (não digo comentar), sobre os jogos semanais do meu Sporting. E foram alguns anos, em canal aberto, sem nunca ter a pretensão de ser um especialista da bola, apenas um fervoroso sportinguista, outro dos meus prazeres da vida.

Essa colaboração com a SIC resultou também de um convite do meu amigo Emídio Rangel, era muito bem remunerada, e também esse dinheiro ia todos os meses para uma instituição da luta contra a droga.

Nunca, mas nunca me considerei um comentador, era simplesmente um opinador, com o privilégio de essas opiniões poderem ser lidas ou vistas e ouvidas por milhares de pessoas. Não usufruir economicamente dessas colaborações dava-me uma independência total, nunca aceitei censuras editoriais, o que no caso do futebol me permitiu recusar dar a minha opinião sobre tudo o que considerasse ataques pessoais ao carácter de pessoas envolvidas. Estava ali para dar a minha opinião sempre parcial sobre lances do jogo, nunca me considerei imparcial, tinha enorme dificuldade em não achar que um penálti a favor do meu Sporting era mal assinalado. Era divertido mas teve custos.

Da SIC passei para a TVI: foram anos demais, hoje quando vejo alguns programas do formato parecido com o daqueles em que participei tenho alguma vergonha.

Alguns opinadores consideram-se pomposamente comentadores, bajulam as estações onde participam, auto-elogiam-se e elogiam-se mutuamente, permitem-se atacar as competências de todos. O futebol português, dizem alguns, está pelas ruas da amargura, ninguém presta, não percebem ser eles uma das principais razões do desprestígio que apregoam.

Comentar, nos jornais, nas rádios e nas televisões, seja que assunto for, deve obrigar a competências específicas, a um profundo conhecimento do que comentamos. E deve também respeitar regras éticas. E já agora saber o significado das palavras que utilizamos. Sobre saúde, e mesmo nesta área, em assuntos específicos, concorde-se ou não com o que digo, fui muitas vezes um comentador preparado. Sobre futebol, fui apenas um opinador parcial, toldado pelo amor ao meu Sporting.

A alguns, infelizmente demasiados, que pomposamente se consideram comentadores de futebol, digo apenas que o respeitem. Que assumam as suas limitações e não vivam sistematicamente de o enlamear.

Escreve com a antiga ortografia

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