Há mais de cinco décadas que assistimos aos surtos que periodicamente assolam a reforma do Estado Português. Cada um chega com um nome novo. Cada um promete a cura definitiva. Cada um repete o mesmo prognóstico. Depois da desmaterialização, do cloud-first, da soberania digital anunciada antes de existir, chega agora o agente patogénico, a que chamamos “agentomania”. Chamam-lhe “Agêntica” ou Agentic State, em linguagem de palco da Web Summit. Dizem que se trata do Estado em ação, mas para nós não passa, mais uma vez, de um Estado apressado sem qualquer transparência.A Agêntica de Inteligência Artificial é real com o seu potencial de automatização algorítmica de tarefas. Tem potencial legítimo, mas não é o que acontece àquilo a que chamamos agentomania. A agentomania é o que acontece quando a tecnologia vira propaganda antes de existir arquitetura, dados interoperáveis ou responsabilização jurídica. Primeiro anuncia-se o agente e depois procura-se o problema. É a inversão que já vimos na nuvem soberana, que é soberana apenas no nome e não de facto, apenas para abrir caminho à avidez de fornecedores e interesses privados.Os números são grandes, pois como sempre os anúncios políticos são empolgados. Mais de 400 milhões de euros prometidos até 2030. Vinte e cinco milhões já destinados a agentes que tratam contratação pública e faturas. A justificação repete-se em todos os discursos, de que produzimos menos do que a média europeia e que a IA é o empurrão que nos falta. O diagnóstico pode até estar certo, mas o remédio está a ser administrado sem receita, nem acompanhamento especializado.A nossa produtividade não ficou para trás por falta de agentes inteligentes, ficou para trás por processos pesados, excesso de controlo formal, falta de gente competente e falta de tempo para pensar estrategicamente. Lançar um agente autónomo em cima dessa estrutura sem a ajustar corretamente, é torná-la mais rápida a errar. É o mesmo padrão do Amália LLM e do anúncio muito à frente da entrega. É o mesmo verniz conversacional sobre fundações que nunca foram consolidadas.Chamar-lhe agente não é pormenor de linguagem. É emprestar à máquina um vocabulário de vontade própria, precisamente onde mais precisamos de previsibilidade, de escrutínio e de poder contestatório. Entre o cidadão e o funcionário público instala-se uma camada nova, que processa, escolhe, sugere e decide antes de qualquer pessoa pôr os olhos no processo.E quando o agente recusa uma prestação social? E quando classifica mal um exame, será que se pergunta ao EduQA? E quando erra uma triagem? Será que alguém responde? É a fuga à responsabilização, com uma camada extra de opacidade algorítmica a proteger quem decidiu comprar a solução.Diz-se em todos os discursos, aqui e lá fora, que um Estado mais automatizado precisa de mais responsabilidade. Concordamos com a frase, mas o que devia preocupar-nos é a distância entre dizê-la num palco e construí-la num sistema. Porque garantir supervisão humana é fácil de prometer, mas é difícil de cumprir quando esse humano tem 200 processos para ver antes do almoço e o sistema já lhe entregou a recomendação pronta, bonita e convincente. Nessas condições, supervisionar transforma-se em assinar e assinar não é decidir.Depois há a hiperatividade contratual. Concursos, pilotos, protocolos com fornecedores, num ritmo que nenhuma fiscalização interna ou externa consegue acompanhar. Dados de milhares de processos cruzados ao mesmo tempo, sem que se consiga seguir cada um deles. Um erro isolado é um aborrecimento, mas um erro repetido por um agente a operar em larga escala é uma política pública que nunca foi debatida, decidida sem escrutínio, descoberta sempre tarde e sempre com algum escândalo pelo meio.Não pedimos quarentena para a Inteligência Artificial Agêntica. Pedimos quarentena para a sua utilização sem cadeia de responsabilização definida, sem interoperabilidade semântica prévia e sem avaliação independente de impacto. A boa burocracia, que garante direitos universais, pode beneficiar de agentes bem desenhados, mas isso exige paciência institucional, dados de qualidade e a coragem política de admitir que a tecnologia não substitui aquela reforma estrutural que continuamos a adiar.Os políticos têm o hábito de anunciar antes de concretizar. Chamam soberana a uma nuvem antes de ela existir. Lançam plataformas antes de aguentarem o primeiro dia de exame. Seria triste, mas não seria novidade, se o Estado em ação chegasse ao terreno antes de nós termos sequer saído de casa.Um agente autónomo não tem coragem para decidir por nós. O que pode fazer, se o deixarmos, é tirar-nos a oportunidade de sermos nós próprios a decidir. E nesse dia, o único agente verdadeiramente autónomo terá sido aquele que assinou por nós sem antes nos perguntar