Nos tempos mais recentes, vários candidatos de direita impuseram-se na América Latina. E seja na Argentina ou no Chile, nas Honduras ou em El Salvador, a proximidade a Donald Trump é muitas vezes apresentada como trunfo de campanha. Resultará também na Colômbia, que no domingo teve a primeira volta das presidenciais, encabeçada por um político pró-Trump, e que volta a votar no dia 21?Trata-se de um país importante da região, quarta maior economia latino-americana, de tradição democrática apesar das guerrilhas semieternas. Uma Colômbia com uma pujança cultural que tem Gabriel García Márquez como símbolo maior, mas é perpetuada hoje, na literatura, por nomes com Juan Gabriel Vázquez, e também se evidencia na música, no cinema e até na gastronomia.A estimativa inicial de resultados dá a passagem à segunda volta ao candidato da direita, Abelardo de la Espriella, com ligeira vantagem sobre Iván Cepeda, o candidato apoiado pelo presidente cessante, Gustavo Petro, considerado o primeiro chefe de Estado de esquerda na História da Colômbia. Outra candidata de direita, Paloma de Valencia, que ficou em terceiro lugar, já anunciou que apoiará De la Espriella na nova votação marcada para 21 de junho. Como os dois mais votados rondaram ambos os 40%, a indicação de voto de Valencia pode indicar um favoritismo da direita, que assim retornaria ao poder, depois de quatro anos de governação de Petro, um ex-guerrilheiro do M19, movimento que depôs as armas e participou no processo negocial que levou à Constituição de 1991. Mas tudo é possível, e o resultado final depende muito da mobilização de cada um dos campos políticos. Cepeda, não esquecer, era o favorito na primeira volta, segundo as sondagens.. De la Espriella defende abertamente um reforço das relações com os Estados Unidos e elogia as políticas de Trump. Cepeda, por seu lado, usa a mesma retórica de desafio de Petro, dizendo que não quer um país “vassalo” dos Estados Unidos. Entre Petro e Trump chegou a haver trocas muito ásperas de palavras, mas a relação entre os dois presidentes melhorou depois de uma visita do colombiano à Casa Branca no início deste ano, já depois da intervenção americana na Venezuela que capturou Nicolás Maduro. E a cooperação no combate ao narcotráfico entre Bogotá e Washington nunca deixou de se fazer, até por ser tempo de produção recorde de cocaína e de ressurgimento de grupos criminais com ou sem ligação às guerrilhas. Petro reivindica apreensões de quantidades também recordes.Nesta segunda volta, cuja campanha começa já marcada pela denúncia de Petro dos resultados estimados, dizendo só aceitar os efetivamente contabilizados, muito será debatido, a começar pela política de “paz total” que era suposto ter posto fim à guerrilha do ELN e das dissidências das FARC, o grupo que há uma década negociou o fim da luta armada. Na época, o presidente Juan Manuel Santos chegou mesmo a receber o Prémio Nobel da Paz. Petro, eleito em 2022, fez da “paz total” um importante objetivo de mandato, mas um atentado bombista já este ano revelou que há grupos interessados em manter o estado de conflito, e isso favorece a posição da direita de apostar numa linha dura, com reforço militar e construção de prisões de alta segurança inspiradas nas salvadorenhas de Nayib Bukele.Também o balanço social do primeiro presidente de esquerda estará no debate público, com a subida do salário mínimo como ponto positivo, tal como o crescimento da economia, mas com a persistência de uma elevada taxa de pobreza a mostrar os limites da ação estatal. Calcula-se que um em cada três colombianos vivem na pobreza, situação que afeta sobretudo as comunidades indígenas e as populações de origem africana.."A sociedade colombiana está dividida e a política externa será só um dos fatores a influenciar a decisão de voto, mas poderá ter impacto na região.” . Há ainda a componente de política externa a observar. A presidência de Petro foi atípica no que diz respeito à relação histórica com os Estados Unidos, independentemente de quem está na Casa Branca, e Cepeda quando fala de recusar vassalagem está a assumir a continuidade, o que hoje pode ser interpretado como um desafio aberto ao chamado corolário Trump da Doutrina Monroe. Pelo contrário, De la Espriella assume-se pró-Trump, e defende uma cooperação estreita com os Estados Unidos, que é a tradição da Colômbia. Na sequência dos acordos de paz com as FARC, o presidente Santos conseguiu mesmo que o país fosse incluído em 2017 como parceiro global da NATO, o único país latino-americano com esse estatuto, de um conjunto de apenas oito a nível mundial, casos do Japão, Coreia do Sul e Austrália. Petro anunciou a intenção de desistir dessa parceria, mas ainda em maio a NATO e a Colômbia continuavam a cooperar, segundo a própria Aliança Atlântica, que continuava a referir o país como parceiro.A sociedade colombiana está dividida e a política externa será só um dos fatores a influenciar a decisão de voto, mas poderá ter impacto na região. Até porque confirmará se há mais uma viragem à direita ou não, a meses de presidenciais no Brasil, o gigante latino-americano, que tem hoje um presidente de esquerda, Lula da Silva.