O tempo parece ser de eleições e confusões, com os poderes legislativo, executivo e judicial a exorbitarem das suas competências para intervirem em competência alheia: como o Supremo Tribunal Federal do Brasil nas presidenciais e na perseguição imediata ao candidato derrotado (7 minutos depois de sabidos os resultados).
A confusão foi reforçada com a distribuição pela primeira e pela segunda volta do voto “contra” – a rejeição de Lula na primeira volta e de Flávio na segunda.
Dois dias depois, houve eleições em Israel. Ali o duelo foi entre a coligação no poder, do Likud de Netanyahu e dos partidos seus aliados, incluindo os fundamentalistas religiosos, e a oposição liderada por Gadi Eisenkot, um general retirado, encabeçando os “moderados” anti-Bibi.
Mais uma vez, estava em jogo inviabilizar a maioria de Netanyahu, jogando na “rejeição”. Mas o Likud continuou a ser o partido mais votado e a juntar na coligação 53 deputados num Parlamento de 120. Eisenkot reúne 48 deputados; onde estão os 19 que faltam para os 120? Nos chamados partidos “árabes” (20% dos eleitores de Israel), que desta vez somaram 19 lugares.
Os principais são o Raam e a Lista Unificada; o Raam é um partido tradicionalista islâmico, que já fez parte de uma coligação governamental entre Junho de 2021 e Dezembro de 2022; a Lista Unificada é um partido de facções esquerdistas e palestinianas. A posição oficial destes partidos é estarem à disposição da oposição a Netanyahu para o derrubar: “48+19= 67 Bibi para a Rua”, lia-se no cartaz empunhado por uma manifestante.
E há ainda os esquerdistas do Hadash, uma facção israelo-árabe favorável à solução dos dois Estados. Netanyahu acusa estes “partidos árabes” de fraude e corrupção, com dinheiros de países da região. Eisenkot, antes das eleições, excluíra coligar-se com eles. Mas agora são eles os árbitros ou, para o New York Times, os “kingmakers”.
Entretanto, na Sérvia, o Partido dos Estudantes venceu o partido de Aleksander Vučič, há muitos anos no poder.
Também na Bulgária houve a segunda volta das eleições presidenciais, ganhas por Iliana Yotova, com 58% dos votos. Iliana é defensora da paz pela negociação com Moscovo, e por isso chamam-lhe “pró-russa”; mas na Bulgária não houve um tribunal constitucional, como na Roménia, para anular a eleição, alegando interferência de Putin.
Nas intercalares norte-americanas, num país dividido ao meio, não houve, definitivamente, a sempre alegada “interferência de Putin”; e também parece ter funcionado a “taxa de rejeição” ao presidente, que aceitou o resultado com relativa civilidade.
Mas, além das eleições, há outros modos de fazer política, mesmo em países ditos democráticos. O primeiro-ministro polaco, Donald Tusk, por exemplo, tentou mudar a composição do Tribunal Constitucional, aproveitando a ausência do presidente da República, o nacional-conservador Karol Nawrocki, em visita de Estado ao Senegal no fim-de-semana de Todos os Santos e Fiéis Defuntos, em que grande parte dos polacos deixa Varsóvia para visitar os seus mortos.
Tusk tentou o “golpe” apoiado por Bruxelas; sem esperar que Nawrocki fizesse o avião voltar para trás, para Varsóvia, e que o “povo de direita” descesse à rua.
A questão dos juízes do Constitucional dura há mais de uma década, entre uma chuva de acusações cruzadas: “anti-democratas” e “radicais de direita” para cá, “vendidos a Bruxelas” para lá.
A ver se se sentam e dialogam, como aconselha o Dr. Seguro. Mas lá, como cá, não parece que vá acontecer.
O autor escreve de acordo com a antiga ortografia