Chicotadas psicológicas

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Em 2023, o Coritiba, clube da quase homónima cidade de Curitiba, bateu um recorde indesejado no futebol brasileiro: teve seis treinadores durante o campeonato, ou seja, substituiu cinco vezes o comandante ao longo de 38 jornadas.

Uma das imagens negativas associadas ao Brasileirão, o torneio de elite do futebol local, é essa mesmo, a de trocar de técnicos como quem troca de camisa – na edição de 2003 foram 40 mudanças em 24 clubes, na de 2015, 32 em 20 equipas. Nesse ano, aliás, 19 dos 20 participantes terminaram a prova com um treinador diferente daquele com que a haviam começado oito meses antes.

Essa moda brasileira, fruto da soma da falta de paciência e de convicção dos dirigentes, do excesso de emoção e de paixão dos adeptos e das falsas expectativas criadas e amplificadas pela imprensa, está a migrar do futebol para outras áreas.

Como, por exemplo, a política. Flávio Bolsonaro, o segundo classificado em todas as sondagens para as eleições de 4 de outubro e único, de acordo com essas pesquisas, com hipóteses de impedir que Lula da Silva cumpra o quarto mandato da carreira, contratou Duda Lima como marqueteiro de campanha nos últimos dias.

Entretanto, Lima sucedeu a Eduardo Fischer, que havia, por sua vez, substituído Marcelo Lopes há apenas dois meses. Sendo que Lopes, um ex-polícia tornado publicitário amigo pessoal do candidato, fora anunciado a 11 do mesmo mês, isto é, meros nove dias antes de abandonar o cargo.

E ele abandonou-o porque, logo depois de assumir, estourou o escândalo em torno dos telefonemas de Flávio a pedir 24 milhões de dólares a Daniel Vorcaro, o corruptor-mor do reino, para financiar um filme sobre o pai, Jair Bolsonaro. No meio do caso foi noticiado que o marqueteiro havia sido contratado meses antes pelo próprio Vorcaro para liderar uma campanha de ataques ao Banco Central nas redes sociais.

Fischer não foi muito mais feliz do que Lopes: enfrentou as réplicas sísmicas da relação umbilical entre Flávio e Vorcaro, depois o vídeo de Michelle Bolsonaro a romper com o enteado e a repercussão altamente negativa da reunião do candidato com Donald Trump, que resultou no aumento das tarifas dos EUA sobre produtos brasileiros.

Para rematar, criou um discurso de Jair Bolsonaro em IA para animar a convenção partidária que formalizou Flávio como concorrente ao Planalto. Resultado: o avatar do ex-presidente pode valer multa pesada para a campanha e agravamento das condições da prisão do Bolsonaro real.

É neste contexto que a candidatura de extrema-direita decide fazer mais uma chicotada psicológica. Duda Lima, que havia anunciado em 2024 o fim da carreira de marqueteiro, quando dirigiu a campanha de Ricardo Nunes, prefeito de São Paulo, e levou um soco de um assessor de Pablo Marçal, adversário de Nunes nessa eleição, durante um debate.

Mudar de treinador constantemente no futebol não costuma ser boa prática: naquele 2023, a meia dúzia de treinadores do Coritiba em oito meses não impediu o clube de ficar em 19.º de 20 equipas e cair para a segunda divisão. Como será na política?

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