Recentemente Cavaco Silva e Passos Coelho vieram ao espaço público, sob o mote das “reformas” que alegadamente o país precisa de fazer e qual deve ser o posicionamento do PSD face ao Chega.Incidirei esta crónica unicamente no tema das “reformas”, aquele em que penso que posso adicionar valor ao debate. Deixarei aos especialistas políticos o tema das alianças partidárias.A Cavaco, e a Cadilhe, devemos a verdadeira reforma fiscal do IRS e IRC que acabou com um emaranhado de Códigos Fiscais, verdadeiro calvário de ineficiências e de injustiças. E ainda a modernização das infraestruturas rodoviárias, à boleia dos fundos comunitários, e a privatização de vários sectores da economia. Ou o elevar do perfil público dos profissionais da economia e da gestão de empresas. E a Autoeuropa, verdadeiro investimento estruturante.A Passos devemos a honestidade e a coragem de fazer o que tinha de ser feito, doloroso, com afinco e sem delongas. Foi impopular, desastrado na criação da perceção que era preciso “ir mais além” do que o ritmo que os credores pediam… E a única “reforma” que encetou foi uma destruição massiva de emprego qualificado, um embaratecer dos despedimentos coletivos, uma diminuição generalizada dos direitos laborais e uma compressão, sem igual, dos salários. Talvez não tenha tido tempo ou oportunidade para fazer mais e melhor. Mas sem dúvida que não tem qualificação para falar em reformas. Simples.Ao contrário de Passos, Cavaco tinha mundo e preparação. E tinha feito a sua carreira não como “administrador” de empresas de amigos partidários, mas na Academia britânica e no Banco de Portugal. Não ficou refém de ministros que usaram o cargo para se projetarem no estrangeiro. Fez várias reformas. Mas na ênfase do betão e nos funcionários públicos, enquanto mercado eleitoral (que Guterres e Coelho aprimoraram, mais tarde), falhou no essencial: preparar o país para a queda do Muro de Berlim e para o fim da vantagem comparativa da economia portuguesa.O falhanço na inserção de Portugal nas cadeias de valor da indústria avançada europeia, com o que isso implicaria de valor acrescentado e emprego qualificado, é a principal tragédia do Portugal democrático e o grande legado governativo de Cavaco. E a alienação de empresas estratégicas e sectores inteiros a estrangeiros ditou o fim da acumulação de capital, originou fraca inovação empresarial e gerou uma economia de grandes empresas de perfil extrativista…Os sucessores de Cavaco aprofundaram este falhanço e deram-nos o turismo, baixos salários e ultrapassagens pelos países que se inseriram nas cadeias industriais alemãs, francesas… Apesar dos milhões de fundos comunitários. Cavaco não tem razão.