Na deslumbrada entrevista que uma embevecida jornalista realizou ao antigo primeiro-ministro Passos Coelho, foram muitas as questões que ficaram por fazer e por responder. Não fora o indisfarçável manto sebastiânico com que, de fio a pavio, envolveu o entrevistado, teria sido útil saber, por exemplo, como se compatibiliza o Passos Coelho que, em 2014, criticou o perfil político “catavento de opiniões erráticas em função da mera mediatização gerada em torno do fenómeno político” com o Passos Coelho que, em 2026, se atira sem pudor para os braços do líder do Chega, o maior catavento político das últimas décadas em Portugal. O estilo seráfico de quem pretende apresentar-se como o grande reformador da nação não esclarece, porém, o sentido, nem a amplitude, das proclamadas reformas. É que quase todos em Portugal defendem a necessidade de reformas no sistema político, judiciário, fiscal, económico, etc. Poucos, no entanto, apresentam propostas claras e concretas e Passos também não o fez. Resta, na ausência da propositura, (re)lembrar a sua ação como o pai da austeridade que queria ir “além da troika”.
Esclarecedoras foram as declarações do ministro Nuno Melo sobre as manifestações em Lisboa e no Porto. A versão beta e sonsa do Chega não difere, na prática, no conteúdo. A culpa é dos estrangeiros, os únicos praticamente que “vê” a manifestarem-se e a falarem aos órgãos de comunicação social. Convinha que o líder do CDS se lembrasse do óbvio: primeiro, há milhares de cidadãos naturalizados e que, por essa via, são tão cidadãos portugueses quanto o ministro; segundo, são milhares os cidadãos portugueses que trabalham e/ou se manifestam pelo direito à habitação ou se revêm na miríade de dificuldades que hoje enfrenta quem procura uma casa a preços acessíveis na maioria das grandes cidades do nosso país. As declarações de Melo, além de infelizes e nos antípodas da matriz democrata-cristã, são próprias de quem vê o mundo a preto e branco, num maniqueísmo pouco recomendável para quem exerce funções de Estado. Os problemas da habitação não se resolvem a contar sotaques.
Entretanto, por essa Europa fora, longe da bolha do Largo do Caldas e de São Bento, sucedem-se protestos e manifestações em diferentes países europeus. Além de Lisboa e do Porto, em Paris, Bruxelas, Milão, Madrid, Valência milhares saem à rua contra o aumento do custo de vida e o preço insuportável da habitação. Portugal, como se sabe, é o segundo país da União onde o custo mais subiu na última década e o sexto onde os jovens saem mais tarde da casa dos pais. Longe começa a ficar o tempo em que o contrato intergeracional garantia que, se estudassem e trabalhassem, as novas gerações teriam uma vida melhor do que a dos seus pais. Quando essa promessa falha, cresce a frustração. E quando a política troca soluções pela procura de culpados, abre espaço a quem transforma a frustração em ressentimento. Não é preciso ser um génio para compreender o risco que este caldo representa para a democracia.