CASES morreu e não há um pio

Manuel José Guerreiro

Presidente da Caixa de Crédito Agrícola Mútuo de Torres Vedras

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A Cooperativa António Sérgio para a Economia Social (CASES) foi definitivamente extinta na passada semana – o Estado saiu, os sites foram abaixo e a Economia Social deixou de ter uma representação formal junto do poder político, económico, mediático e da sociedade civil. São dias tristes que sucedem a anos ainda mais tristes. Por um lado, o Governo e a sua ministra do Trabalho, que tutela a CASES, abdicou de um instrumento fundamental (que vale muitos votos e uma percentagem relevante do PIB) e feriu de morte o braço social-democrata de Francisco Sá Carneiro. Por outro lado, os senhores que lideraram a CASES condenaram à irrelevância uma estrutura que poderia e deveria ter assumido uma influência proporcional ao peso económico e social que representam. Que representamos.

Lamento muito. Sou um capitalista social, infelizmente não se inventou outra forma de criar riqueza suficiente para poder ser distribuída. No meu tempo chamava-se a isso ser social-democrata, mas hoje ser moderado é quase sinónimo de revolucionário. Tempos estranhos e radicais, mas é necessário ter a coragem de afirmar que todos os extremismos, de direita e de esquerda, não gostam de cooperativas, de mutualistas ou de misericórdias. Os extremistas desejam sempre o controlo, detestam a liberdade e as iniciativas dos cidadãos, abominam a cooperação, o juntar esforços que fujam à sua sede de controlo absoluto. Talvez por isso, perdoem-me o desabafo, os radicais de esquerda acham-me um infiltrado e os de direita dificilmente catalogável ou suspeito.

António Sérgio foi uma referência para o fundador do PPD. E foi Sá Carneiro quem criou as condições para o nascimento da CASES. Também por isso são dias cinzentos e descoroçoantes. Ver um Governo do PSD a radicalizar-se é algo que dificilmente pensei ver.

Não deixarei de defender a Economia Social e a necessidade de o nosso setor estar representado, de fazermos por isso, de pensarmos soluções que nos libertem de qualquer dependência. Precisamos de um aggiornamento, de apostar em palavras diferentes e pessoas arejadas que construam uma cultura cooperativa, sem isso não há possibilidade de uma Economia Social consciente do seu papel. As pessoas só partem para o combate, só se mobilizam quando há um desígnio, quando se vende uma ideia de Bem, quando se constrói futuro e se trabalha também para as gerações que ainda não nasceram. Que se crie a oportunidade, de os bancos cooperativos e mutualistas descontarem para um Fundo Cooperativo da Economia Social que suporte as despesas de um regulador autónomo e independente para cumprirmos o futuro. Precisamos de inventar uma história que permita conciliar o capitalismo e a distribuição social justa e equilibrada, e essa tem um nome Cooperativismo.

A CASES morreu. Sem glória. Sem cumprir qualquer um dos seus principais objetivos estratégicos. Sem influenciar a agenda política, sem alianças com o Estado, sem contribuir para a inovação do setor e sem conseguir sequer combater pela sua sobrevivência, por uma pequena indignação que fosse, nada de nada. Na Caixa Agrícola de Torres Vedras organizámos o maior encontro internacional de sempre da história do cooperativismo em Portugal, a Global Innovation Coop Summit. Mais de 50 oradores de 32 países estiveram presentes, assim como o ministro dos Negócios Estrangeiros, Paulo Rangel. António Guterres, Marcelo Rebelo de Sousa e o presidente da Aliança Cooperativa Internacional, Ariel Guarco, enviaram mensagens, e o presidente da CASES não compareceu por questões de agenda. É revoltante, foi revoltante, mas infelizmente um sinal claro acerca da sua total ausência de noção. Nos tempos em que o comunismo era uma ameaça, dir-se-ia que a Economia Social foi expropriada pelo Governo. Mas tal aconteceu agora pela incompetência de pessoas que nunca nos apontaram qualquer caminho, que nunca verdadeiramente nos representaram.

Não é possível matar o terceiro setor, creio que ressuscitará mais forte porque existem homens do bem e de boa vontade. E o bem ainda é o melhor dos negócios.

manuel.guerreiro@ccamtv.pt

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