Camilo Pessanha: O Sentido Violento da forma

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Passam 100 anos sobre a morte de Camilo Pessanha (1867-1926), em Macau, e 100 anos depois é tempo de lembrar este que foi um dos mestres da modernidade poética portuguesa. Nas palavras de Bárbara Spaggiari, um dos maiores (talvez o maior) poetas simbolistas europeus.

A questão central em Pessanha não passa pela biografia e o que sobre ela são alguns lugares-comuns, que mais atrapalham do que esclarecem o poder da sua arte. Se foi opiómano, isso é secundário. A poesia de Clepsydra (ed. Lusitânia, 1920), único livro que publicou em vida, em 1920, devido à vontade de Ana de Castro Osório, sua editora e amiga, isso é o que importa. O modo como a sua existência está nos seus poemas e são eles o imo de uma bio-grafia, isto é, de uma vida posta e exposta na escrita.

Trata-se de uma poesia que nasce da vontade de fixar o impermanente do real ("Imagens que passais pela retina / porque não vos ficais?"), ao mesmo tempo que, para fixar as imagens fugidias desse real, Pessanha aposta na exploração do símbolo e da imagem, como, na senda de Mallarmé, postulava a estética simbolista: "O símbolo deve sugerir e evocar", escreve o poeta francês. Assim, o poema deveria dar não uma imagem realista ou mimética do objecto visionado, mas a fusão do real visto como um irreal intuído.

Ver além do imediato seria escrever o poema num permanente trânsito entre real e transcendência. Atingir a essencialidade por meio da intersecção de planos (o interior e o exterior, o abstracto e o concreto, o físico e o metafísico, o passado com o presente e o futuro), numa extremada experiência das sonoridades, como se só obtendo uma perfeição musical o real pudesse verdadeiramente ser compreendido por sugerir intensamente, eis o que Pessanha, desde a década de 90 do século XIX, em revistas que absorvem a influência dos simbolistas franceses (Ave Azul, Boémia Nova, ou O Intermezzo) oferece a uma poesia marcada por uma sentimentalidade ainda de gosto tardo-romântico.

Poesia que, como a nossa, só tinha em Cesário Verde (1855-1886) e António Nobre (1867-1900), os poetas verdadeiramente precursores da estética que haveria de ser moderna. Pessoa (1888-1935) e Mário de Sá-Carneiro (1890-1916) isso mesmo compreendem e vincam ao falar de Pessanha. Para o criador dos heterónimos, o poeta de "Violoncelo" ter-nos-ia ensinado a "sentir veladamente" e para o autor de Dispersão (1913), Pessanha era "o grande ritmista".

E se relermos, de Pessoa, sobretudo o ortónimo, poemas seus em verso regular, é nos quais a dimensão fonomelódica é executada de forma eximia, é ainda o eco de Pessanha o que verdadeiramente pressentimos como lição apreendida. Um exemplo? O poema "Ao longe ao luar/ no rio uma vela / serena a passar / o que é que me revela?" em que a partir da imagem-símbolo da vela (significando o enigma indecifrável) todo o poema se organiza. Quer dizer: pessoa apreende de Pessanha esse princípio geral da poesia como composição feita com base na analogia, naquilo que em Baudelaire (1921-1867) era a teoria das correspondências à luz do seguinte facto: "Nós sabemos que os símbolos não são obscuros senão de uma maneira relativa" (Revue Fantasisiste, 1861).

Logo, a impressão que nos dá a poesia de Pessanha é o ser ela uma arte da evanescência, da sugestão, daquilo que prismaticamente se apreende mas nunca se define completamente. A prová-lo está essa obra-prima do simbolismo, "Chorais arcadas / do violoncelo! / Convulsionadas!/ Pontes aladas / De pesadelo!" Aí a polissemia do lexema "arcadas" determina, por analogia, o sentido do poema: arcadas / arcos de uma ponte por onde passam os barcos em direcção à morte, futuros "blocos de gelo"... Tudo em fusão com a música ambiente de um arco que vibra nas cordas de um violoncelo que chora.

Quando Pessoa convida Pessanha para escrever para o n.º 3 da Orpheu (o que não se concretiza, como se sabe), teria em vista precisamente essa poética feita do vago, da complexidade e do subtil. Mas teria, ao mesmo tempo, a certeza de que em Pessanha a "ideação vaga" não significava "ideação confusa", como em 1912, em A Águia, revista do saudosismo português, tinha estabelecido.

Simplesmente Camilo Pessanha concretizava essa estética do vago e do subtil numa expressão complexa, antecipando muito do que os próprios modernistas farão depois (além de Pessoa e Sá-Carneiro, os sonetos de Alfredo Pedro Guisado) e Pessoa, planeando a evolução do paulismo até ao sensacionismo não duvidava ser Pessanha um ponto nevrálgico dessa evolução em direcção ao "sentir tudo de todas as maneiras"; um sentir que provinha de Pessanha, porquanto, modernamente, o simbolista sabia já que a dor, "essa falta d'harmonia" é a condução da arte moderna, arte nascida do estilhaçar do eu e da crise da representação; uma arte nascida do homem moderno, doente de novo, perplexo perante o seu próprio abismo, ciente de que ter sonhos cruéis "n'alma doente" é ir "a medo na aresta do futuro".

Quando lemos hoje poemas como "Tatuagens complicadas no meu peito", "Fonógrafo, " Caminho" (o segmento I), "Ó cores virtuais que jazeis subterrâneas" ou "Foi um dia de inúteis agonias", que vemos? Que Camilo Pessanha (jamais presente no ensino da nossa língua e literatura), é um prodigioso fazedor de imagens impressivas, um agudo leitor desta modernidade enlouquecida, vertiginosamente a caminho do fim. Esse fim, na verdade, exprime-se num livro cujo título, Clepsydra, é já um programa: relógio de água que marca o tempo da fala reservado ao orador. Mas também pelo som "idea", signo ou símbolo que remete para a hidra de Lerna, o monstro que representa os vícios intransponíveis do ser humano.

Poeta que morreu há 100 anos, dele disse Gastão Cruz que, na sua poesia, as imagens são o elemento definidor de uma poética do tempo. Lição de poesia como arte da palavra, conquista da autonomia da imagem, agora livre para ser verdadeiramente o núcleo intensificador de um discurso surpreendente: imagens "Que passais como a água cristalina/ Por uma fonte para nunca mais!... // Ou para um lago onde termina/ Vosso curso silente de juncais, / E o vago medo angustioso domina, / Porque ides sem mim, não me levais?"

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