O caráter contraditório e de permanente tensão consigo mesmo marca a épica de Camões, que nos ensinaram a ser obra de pura celebração e louvor. Esta análise mais fina de um Camões que levanta a sua voz, crítica e desiludida, no meio do cenário da sua exaltação épica, já tinha sido percebida pelos melhores leitores da sua obra, como Jorge de Sena ou Eduardo Lourenço. Mas um recente e notável livro de Helena Buescu (Camões Poeta, Herói nos Lusíadas, Tinta da China, 2026), vem realizar um exame mais aprofundado desta questão, partindo curiosamente de uma ideia de Keats sobre a “negative capability” do poeta, que lhe permite permanecer no meio das incertezas, dos mistérios e das dúvidas, sem procurar esclarecê-las, indo além de factos e razões, no sentido da Beleza.É pois a partir de um romântico maior, que Helena Buescu examina a obra de Camões, onde a voz do autor intervém constantemente na narrativa épica, introduzindo o conflito e a dúvida, num tom de amargura e desilusão que contradiz, com a maior “negative capability”, a exaltação e o louvor da sua épica.Por isso, a lírica entretece-se nos Lusíadas com a épica e o desencanto do poeta contrasta com os seus louvores aos heroísmos que veio narrar, desencanto que tem o seu primeiro momento no terrível discurso do Velho do Restelo, o seu ponto decisivo de viragem no episódio do Adamastor e que culmina nesta desesperada estrofe, quase no final do poema:No mais, Musa, no mais, que a Lira tenhoDestemperada e a voz enrouque-cida,E não do canto, mas de ver que venhoCantar a gente surda e endurecida:O favor com que mais se acende o engenhoNão no dá a pátria, não, que está metida,No gosto da cobiça, e na rudezaDuma austera, apagada e vil tristeza. Como comenta a nossa autora: “Assim o poema finda com a conjugação entre duas pulsões aparentemente contraditórias, mas que fazem ambas parte do cerne da epopeia: por um lado, a pulsão futurante, vinda da extraordinária descrição da Ilha do Amor (...). Mas temos, por outro lado, a pulsão melancólica, que o faz descrer, afinal, não apenas dos “feitos dos Lusíadas”, mas, muito em especial, das suas próprias forças para cantar”.Depois de ter visto o que viu na realidade crua do Império, que pode o poeta esperar da exortação que lança ao jovem rei Sebastião? Pouca coisa: “Mas eu que falo, humilde, baxo e rudo / De vós não conhecido nem sonhado?” Mas a vitória final do poeta está no próprio poema. Como melhor diz Helena Buescu: “O poeta pode terminar a sua epopeia tendo consciência da sua “voz enrouquecida”, mas o certo é que as últimas estâncias lhe pertencem, ainda, como uma fascinante combinação, que a si mesmo atribui, das qualidades essenciais que permitiram a realização de um feito único: a escrita da epopeia e, por ela, o alcance da imortalidade”.Há assim uma poderosa lírica enredada nesta épica, uma elegia a assombrar o canto das glórias: esta intuição leva Helena Buescu a ir mais longe na compreensão destas dúvidas e desesperanças, no entendimento de que, pela sua “negative capability”, que os românticos entenderam, é afinal a poesia (ou a Beleza, no dizer de Keats) que se vem impor às insolúveis contradições que afrontam o poeta, esse “desconcerto do mundo” virado contra os “bichos da terra tão pequenos” que somos nós, humanos. É a poesia que prevalece contra a morte e o desengano.