Tenho tido a oportunidade de partilhar ideias sobre o futuro. No último ano fi-lo em dezenas de fóruns, debates, livros, entrevistas e neste nosso espaço semanal que tanto valorizo.
Parece um lugar-comum, mas hoje é quase revolucionário pensar num mundo mais imprevisível do que nunca. Ousar pensar, e arriscar não repetir as fórmulas e palavras de sempre, é difícil e necessário.
Sei por experiência própria, sendo presidente de uma caixa agrícola e um convicto cooperativista, que não é fácil alguém do setor da Economia Social ser visto como um entre iguais pelas elites políticas, financeiras ou mediáticas, mas talvez esteja em curso uma mudança num dogma que se julgava inultrapassável. Uma espécie de um filho de um Deus menor… Foi criada esta ideia , adoro contrariá-la.
Tenho sido convidado para debater o sistema financeiro, a banca, a economia e as empresas do futuro em painéis com grandes empresários, presidentes ou administradores da banca comercial ou líderes políticos.
Na conferência organizada pelo DN, na passada semana, debati no mesmo plano com Maria João Carioca, coCEO da GALP e antiga administradora da CGD; com Ana Carvalho, administradora executiva da Caixa Geral de Depósitos; com Jorge Rebelo de Almeida, dono do Vila Galé e Marco Galinha, acionista maioritário do Grupo Bel. E nos próximos dias estarei em Belo Horizonte onde serei o único representante português no World Cooperation Market, o maior evento cooperativo do mundo, integrando um lote indicado como os 20 maiores especialistas.
O último parágrafo não é uma prova de presunção ou um acesso ridículo de soberba, é apenas a constatação de que existe vontade de muita gente em não desistir de pensar, em não ceder ao tempo no que este tem de mais perigoso, o vício da superficialidade, a ausência de problematização, a abdicação do pensamento e da criação de novas ideias. Ser chamado para estar em discussões em plataformas onde, regra geral, os cooperativistas não estavam representados, é um indício de que as cooperativas financeiras podem (e devem) ter um papel num sistema financeiro cada vez mais virtual, cada vez com menos contacto com as pessoas reais, cada vez mais divorciado da vida real das comunidades.
A Caixa Agrícola de Torres Vedras é elogiada pela dimensão do seu fortíssimo domínio no concelho – temos a maioria dos balcões e dos depósitos em cada uma das 15 freguesias da comunidade. Somos elogiados, mas no meu íntimo pergunto-me sobre a razão que leva alguém, em Torres Vedras, a não ser nosso associado ou cliente. Pela simples razão de que somos diferentes. Criamos valor económico, temos excelentes resultados e o lucro é redistribuído pela comunidade – não há nenhum lugar onde se faça desporto que não tenha o nosso apoio, não há festa popular em que não estejamos presentes, não há escola que não seja ajudada, não há um lar ou um projeto comunitário que nos seja indiferente.
Nenhum banco comercial poderia ajudar a nossa cidade e as nossas pessoas na dimensão em que o fazemos e isso só se consegue tendo bons resultados. Chama-se reciprocidade, não há “nós” e “eles”, todos somos donos, todos partilhamos uma vontade comum.
Existimos há mais de cem anos. Passámos por quase tudo. Regimes diferentes, pressões diferentes, problemas diferentes. E cá estamos, sólidos e indispensáveis. Nunca deixo morrer a esperança, mas acredito que as coisas ainda podem piorar antes de começarem a melhorar – a guerra está ai.
A revolução tecnológica está em curso, existirá sangue, suor e lágrimas. E as instituições precisam de ser mais do que máquinas de lucro para enriquecer acionistas. Não tenho nada contra, mas a Economia Social precisa de saber ocupar espaço e conquistar poder. O poder de ser escutada. O poder de convencer o Governo, e os futuros governos, de que pode jogar um papel decisivo quando as dificuldades surgirem. Em Belo Horizonte terei a oportunidade de ouvir e de ser ouvido. E partilharei consigo. Com sentido de responsabilidade e otimismo vigilante.
manuel.guerreiro@ccamtv.pt