Brasília, substantivo masculino

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Em 2008, os Estados Unidos, país com 14% de negros, fez algo que o Brasil, com 56% da população negra ou parda, nunca fizera até então, nem depois disso: elegeu um negro, o democrata Barack Hussein Obama, como presidente.

Mas, em 2010, o gigante da América do Sul deu um passo que o gigante da América do Norte jamais havia dado ou deu desde esse ano: elegeu uma mulher, Dilma Vana Rousseff, como presidente. Nos dois países, o peso da população feminina é semelhante, 51,5%, mas no Brasil só houve na história 24 eleições diretas, enquanto os EUA somam 60, mais do dobro, de sufrágios.

Naquela eleição de 2010, além de Dilma, que bateu José Serra na segunda volta, foi ainda protagonista Marina Silva, a terceira mais votada. Quatro anos depois, a ambientalista, que começara a corrida como candidata a vice, mas assumiria a liderança do ticket presidencial após a morte de Eduardo Campos - num acidente de avião durante ação de campanha em Santos -, ficou outra vez em terceiro, atrás da reeleita Dilma e de Aécio Neves. Em 2018 foi apenas a oitava mais votada.

E, em 2022, viu Simone Tebet terminar na terceira posição, atrás apenas dos fenómenos eleitorais Lula da Silva e Jair Bolsonaro. Soraya Thronicke, Vera Lúcia e Sofia Manzano também participaram nessa eleição, um recorde, sendo que Tebet e Vera Lúcia tinham mulheres como vice, um dado nunca antes visto.

Chegados a 2026, o Brasil voltou ao cenário pré-Dilma: dos nove candidatos, com Ciro Gomes a cogitar se se torna o décimo, só há uma mulher. É Samara Martins, vice-presidente nacional do Unidade Popular pelo Socialismo, partido minúsculo sem assento parlamentar, e 1% nas intenções de voto, ou menos, nas simulações de primeira volta dos diversos institutos de pesquisa.

Dentista, mãe de dois filhos, só 45 mil seguidores na rede social Instagram e defensora de um “programa revolucionário” que visa, entre outros pontos, responder às crises do capitalismo, como a exploração dos trabalhadores e a destruição do planeta, para ela, parlamentares eleitos deveriam ser obrigados a usar o sistema nacional de saúde e o sistema público de educação locais de forma a sentirem-se estimulados a aumentar os orçamentos para as duas áreas. Samara está, portanto, muito à esquerda de Lula.

Os demais candidatos são todos homens, mas Flávio Bolsonaro, de olho no voto feminino, que tem nove milhões de eleitores a mais do que o masculino e escolheu, com uma folga de 11 pontos percentuais, segundo as sondagens, Lula em vez de Jair Bolsonaro em 2022, ainda negoceia uma vice mulher, nomeadamente Tereza Cristina, ex-ministra da Agricultura.

O protagonismo das eleições para o Palácio do Planalto, porém, após o fenómeno Dilma de 2010 e 2014 e os recordes de participação liderados por Tebet em 2022, volta a ser (muito) dominado por homens.

Afinal, Brasil sempre foi um substantivo masculino. Mas o Planalto e demais sedes dos poderes são em Brasília, supostamente a versão feminina desse substantivo.

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