Ébola: vírus ilegal não passa fronteiras. A crença!

Raúl M. Braga Pires

Politólogo arabista. Professor no Instituto Piaget de Almada

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O vírus ébola, foi descoberto em 1976, e desde então, o Ministério da Saúde da República Democrática do Congo (RDC), declarou na sexta 15, que o actual surto no país, é o 17.º, desde esse ano! Ou seja, o ébola é como uma entidade inimiga, monitorizada desde a Constituinte, como se estivesse na Most wanted list! Tem um longo cadastro, não havendo dúvidas sobre origem, propagação, riscos e como resolver. O ébola há muito que está fichado, monitorizado e “frito”, mas agora passou para a “fábula africana”!

Qual é a novidade do surto 2026?

Nenhuma, mas convém assinalar que a cada momento ébola, o que se tem registado, é que países com fronteira com o “infectado”, sem casos, tecem teorias sobre a imunidade de certas nacionalidades, sobre a impossibilidade de o vírus passar fronteiras e outras quimeras que deliciam os povos de tradição oral!

Vale a pena citar um dizer fula, que assinala que, “enquanto a cultura salva os povos, as mentiras sufocam um país”.

É o actual cenário, no Ruanda, ali na fronteira leste com a RDC. A imprensa, só não faz primeiras páginas, sobre os super-poderes dos ruandeses, que vivem paralelamente ao vírus e não há uma baixa! Não faz, mas é como se fizesse, que o diz-que-disse nos mercados, lojas e machimbombos, já conquistou os “corações de ferro” ruandeses, imunes à ferrugem, dos 8 aos 80. O governo do Ruanda, sem mais nada para apresentar, explora este sublime da soberba dos super-heróis!

Quem está muito preocupado com esta malapata, é Angola, com fronteira com o oeste da RDC, longe do epicentro do surto, mas não longe, nem imune ao referido folclore, que passa fronteiras, bloqueadas ao vírus!

É verdade, os angolanos, quem decide, está em pânico com a possibilidade de ficarem todos infectados, não directamente a partir da RDC, mas a partir do regresso de adeptos e equipa de futebol, dos EUA, após o Mundial deste Verão. Tudo baseado na crença de que o vírus não atravessa fronteiras, por ser ilegal, por não ter visto, por não ter passaporte! É esta a anedota de Kigali a Luanda, cada vez mais viral no boca-a-boca.

Outro factor que tem contribuído para o mito, é a forma como a imprensa local coloca o assunto, sempre na tónica colonial, a propósito da gestão da coisa! A RDC é do tamanho da Europa, mas o país está em confinamento “de Lisboa a Varsóvia”, quando apenas uma região no leste, está no epicentro do surto. À volta, a vida decorre normalmente, reforçando uma crença na menorização da “raça congolesa”, e outra na excepcionalidade das “raças vizinhas”, Ruanda, Burundi e Uganda, paredes-meias com a crise, no leste, e Angola, a “uma Europa de distância”!

Escreve de acordo com a antiga ortografia

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