Maurice Barrès foi um pensador político-chave na França da transição do século XIX para o século XX. Fico a saber, pela recensão de Philippe Delorme na última edição do semanário Valeurs Actuelles, que Michel Guénaire publicou uma biografia do autor de Les Déracinés, intitulada Maurice Barrès, le grand écrivain retrouvé.De Guénaire conhecia La Visite, um relato detalhado e fascinante da visita de Hitler a Paris, na manhã de 23 de Junho de 1940, dias depois do Armistício e rendição da França, após a campanha-relâmpago vitoriosa da Wehrmacht. Como alguém escreveu, “foi a Blitzbesuch, a visita-relâmpago, depois da Blitzkrieg, a guerra relâmpago”.Na visita-relâmpago, o führer fez-se acompanhar por Albert Speer e pelo escultor Arno Breker. Chegou às primeiras horas da manhã de um domingo soalheiro de Verão, admirou a Torre Eiffel e foi aos Invalides homenagear Napoleão. Tudo, durou duas horas e meia, mas Hitler confessou depois que “foi o mais belo dia da sua vida”.Barrès teria sofrido a repetição do acontecido na guerra franco-prussiana, em 1870-1871, tinha ele 8 ou 9 anos. Nessa guerra, os alemães de Bismarck e Von Moltke também tinham derrotado os franceses, fazendo cair o Segundo Império, ocupando Paris e ficando com a Alsácia-Lorena.Barrès, tal como Renan e Maurras e milhões de franceses, foi marcado por esta derrota; e a partir da derrota, vai procurar, não apenas a révanche e a reconquista das províncias perdidas, mas também as razões dessa derrota.Para Renan, um dos pais do nacionalismo-conservador francês e europeu e autor do famoso “Qu’est-ce-qu’une Nation?”, a vitória alemã vinha da organicidade comunitária das instituições da monarquia prussiana, que valorizavam o Estado e a Nação sobre o individualismo e o parlamentarismo que a França sobrevalorizava. Como Renan, também Barrès, inicialmente um devoto do Culte du Moi, vai converter-se no teórico do nacionalismo orgânico e social.É um nacionalismo que assenta na importância da “Terra e dos Mortos” como determinantes da identidade e da soberania; mas se tem esse lado “de direita”, tem também uma forte componente popular e social, extremamente crítica do liberalismo e do materialismo economicistas e da sua pretensão de que o económico deve determinar o político. Será nesse ponto um precursor, e para alguns, como Zeev Sternhell, o inventor e o pioneiro, da “direita revolucionária”.Ao contrário de Maurras, com quem converge na exaltação nacionalista e na condenação de Dreyfus, Barrès manter-se-á republicano; na trilogia Roman de l’Énergie Nationale, através da odisseia de sete jovens da Lorena, emigrados em Paris, vai procurar provar a importância das raízes familiares e provinciais para a saúde e a força da comunidade nacional.Olhando para os novos nacionalismos populares europeus, nascidos da reacção ao globalismo e mercantilismo das elites político-financeiras da Euro-América, não é difícil encontrar coincidências com o pensamento deste pai do nacionalismo, cujos excessos e incorrecções radicais — e até raciais — ele próprio procurou corrigir. Não se arrependeu no Caso Dreyfus, mas lembrou os judeus que morreram pela França nos campos de batalha da Grande Guerra; e, no seu último romance, Un jardin sur l’Oronte, imaginou a paixão de um Cruzado cristão por uma princesa muçulmana, um enredo a que muitos dos seus discípulos, hoje, não iam achar graça. O autor escreve de acordo com a antiga ortografia