Automatização como novo autoritarismo?

Salvador Varges

Estudante e politólogo

Publicado a

Há uma frase que se repete em todos os manuais de Ciência Política sobre o populismo: o problema do populista no poder nunca foi a falta de vontade, foi a falta de meios. Prometer expulsar imigrantes, cortar gastos desnecessários do Estado ou varrer a Função Pública de "inimigos internos" sempre foi fácil em contexto de campanha. Executar essas promessas, depois, é que costumava esbarrar na realidade e em todos os constrangimentos que conhecemos. E não é por nenhuma reforma constitucional ou golpe palaciano: é porque a Inteligência Artificial está, silenciosamente, a tornar-se a ferramenta que faltava aos partidos populistas para finalmente cumprirem o que prometem, sem terem de discutir cada decisão, sem terem de convencer cada funcionário e sem deixarem impressões digitais tão óbvias quanto um decreto assinado.

Comecemos pelo exemplo mais conhecido, ainda que não seja, tecnicamente, europeu, mas que está a ser copiado em toda a Europa com uma rapidez incómoda. Nos Estados Unidos, o Department of Government Efficiency (DOGE) de Elon Musk cortou mais de 200 mil empregos federais, chegando a despedir 10 mil trabalhadores numa semana, segundo a DW News, nos primeiros cem dias da segunda Administração Trump, com a maioria das decisões impulsionadas por ferramentas de Inteligência Artificial. Cada departamento e cada função recebeu uma "pontuação de eficiência" gerada algoritmicamente, que serviu de base a decisões de reestruturação, sem que a IA, tecnicamente, "decidisse" nada. É uma distinção importante e perversa: ninguém assina a demissão de 30 mil pessoas. Um sistema recomenda. Um humano carimba. A responsabilidade evapora-se entre o código e a assinatura. O mais preocupante não é que isto tenha acontecido nos EUA. É que já está a ser exportado para democracias que não têm absolutamente nada de populista.

Keir Starmer, primeiro-ministro demissionário do Reino Unido, um social-democrata, não um nacionalista, abraçou aquilo que tem sido descrito como a sua própria versão da Doutrina DOGE, a diretriz de digitalização, que substitui funcionários públicos por Inteligência Artificial numa tentativa de poupar 45 mil milhões de libras, com uma restruturação de 10% da Administração Pública. Se até um governo trabalhista em Londres acha que esta é a linguagem certa para falar de Função Pública, talvez devêssemos parar de pensar nisto como "uma tentação da extrema-direita" e começar a pensar nisto como aquilo que realmente é: a nova gramática universal da governação algorítmica, da qual o populismo é apenas o utilizador mais entusiasta, porque é o que tem menos escrúpulos em usá-la sem rede de segurança.

Outro terreno mais subtil, e é aqui que está a verdadeira originalidade deste momento histórico: a propaganda gerada por Inteligência Artificial já não precisa de enganar ninguém para funcionar. Na Hungria, a campanha do Fidesz de Viktor Orbán apostou fortemente em conteúdo gerado por IA, incluindo um vídeo viral de um soldado húngaro morto na frente ucraniana, com a filha a chorar à espera dele, um vídeo amplamente reconhecido como falso, identificável como tal por qualquer espectador com um mínimo de atenção, e que, ainda assim, deixou marca emocional duradoura em quem o viu. A IA, aqui, não mente: dramatiza. Não precisa de convencer ninguém de que é real. Precisa apenas de instalar uma emoção, e a emoção fica. Mesmo depois de a pessoa saber que a imagem é falsa, uma vez instalada esta emoção, o manipulador já fez o seu trabalho, mesmo que a mentira seja depois desmontada.

No entanto – e isto é o detalhe que devia abrir todos os artigos sobre IA e populismo, e que quase nenhum menciona –, o Fidesz perdeu. Depois de 16 anos no poder, depois de controlar a generalidade dos meios de comunicação, depois de uma máquina de propaganda assistida por IA sem precedentes na União Europeia, Orbán foi esmagado nas eleições de abril pelo Tisza de Péter Magyar, que conquistou maioria constitucional no Parlamento húngaro.

A IA deu a Orbán uma arma mais afiada do que nunca, mas não lhe deu a vitória. Isto é uma nuance que vale a pena defender publicamente, mesmo sabendo que é menos viral do que o alarmismo: a Inteligência Artificial não é uma garantia de sucesso autoritário. É um multiplicador de força, multiplica tanto a capacidade de manipular como, por vezes, a visibilidade do próprio exagero. Quando a mentira é demasiado óbvia, ou demasiado repetida, o eleitorado pode simplesmente deixar de a “comprar”.

Portugal ainda discute bandeiras em mastros e pacotes laborais em Concertação Social, quem vai ceder em que aspetos, debates lentos, públicos, sujeitos a vetos e a greves gerais, com todo o desgaste democrático que isso implica. É moroso, é frustrante, e é, também, a melhor garantia que temos de que ainda ninguém entre nós decidiu cortar, vigiar ou convencer sem que alguém tivesse de dar a cara por isso. No entanto, Luís Montenegro já anunciou a apresentação de uma ferramenta de Inteligência Artificial portuguesa, dizendo que: “É um motor de inovação para empresas e universidades e um instrumento de inovação na lusofonia.” Veremos.

A pergunta que devíamos andar a fazer não é se a IA vai chegar à governação portuguesa. – Vai. Está a chegar a todas! – É se vamos exigir que continue a custar caro, em tempo e em responsabilidade política, utilizar estes meios para a manipulação e puro proveito político.

Diário de Notícias
www.dn.pt