Asilo: quem beneficia de um sistema lento e ambíguo?

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PArecente decisão do Parlamento Europeu de aprovar a lista europeia de países de origem seguros e de clarificar o conceito de “país terceiro seguro” marca um ponto de viragem na política migratória da União. O CDS votou favoravelmente esta alteração legislativa porque entende que o direito de asilo só sobrevive se for juridicamente rigoroso, tecnicamente eficaz e politicamente sustentável.

Durante anos, a Europa conviveu com um sistema excessivamente lento, desigual entre Estados-membros e vulnerável a abusos processuais. O resultado foi duplamente negativo: por um lado, milhares de pessoas com pedidos legítimos permaneceram durante anos num limbo jurídico; por outro, pedidos manifestamente infundados consumiram recursos administrativos escassos, atrasando decisões e enfraquecendo a confiança pública.

Politicamente, a reforma responde a uma evidência: sem regras claras e aplicadas de forma uniforme, o sistema perde legitimidade. A ausência de critérios comuns alimentou perceções de descontrolo, abriu espaço ao crescimento de forças que contestam o próprio direito de asilo e fragilizou o consenso europeu em torno da proteção internacional. Defender limites jurídicos não é ceder ao populismo, é impedir que ele prospere.

Estas alterações não tornam a Europa menos humana. Tornam-na mais responsável. Ao acelerar decisões em casos infundados, libertam recursos para analisar com maior rigor e celeridade os pedidos de quem enfrenta risco real.

Pode um sistema que demora anos a decidir ser considerado verdadeiramente humanitário? Pode a Europa proteger quem foge da perseguição se não distinguir com clareza entre quem precisa de asilo e quem procura melhores oportunidades económicas?

Curiosamente, aqueles que mais proclamam a defesa do asilo foram, muitas vezes, os que recusaram qualquer critério vinculativo comum, como se a ausência de regras fosse sinónimo de compaixão. Essa visão - generosa no discurso, mas indiferente às consequências práticas - contribuiu para um sistema desordenado que perdeu legitimidade junto dos cidadãos.

Quando os cidadãos percebem que as instituições não conseguem gerir fluxos migratórios com previsibilidade e justiça, cresce a desconfiança e enfraquece-se o consenso democrático. Não foi o rigor que fragilizou o consenso europeu, foi a ausência dele. Quando a política abdica de decidir, outros ocupam esse espaço.

O direito de asilo existe para proteger quem foge de perseguição individualizada, conflito armado ou violência grave. Não foi concebido para substituir uma política migratória. A Europa continuará a precisar de imigração legal, regulada e orientada para as suas necessidades demográficas e económicas, mas por vias próprias e transparentes.

Ao votar favoravelmente esta reforma, o CDS no Parlamento Europeu assumiu uma posição clara: se queremos preservar o asilo como pilar dos valores europeus, devemos assegurar que ele seja aplicado com seriedade, e eficácia. Só assim protegeremos verdadeiramente quem precisa e a própria credibilidade da União Europeia”

Eurodeputada pelo CDS, membro da Comissão Justiça e Assuntos Internos

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