As três vias de Trump na guerra contra o Irão

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Há decisões políticas que parecem movimentos calculados e há outras que soam a formas de ganhar tempo. Os cinco dias que Donald Trump concedeu ao Irão para negociar pertencem claramente à segunda categoria. Não representam uma janela realista para um acordo, mas antes uma tentativa de Washington ganhar tempo numa fase em que as cartas que tem na mão, perante um inimigo fugidio, parecem ser pouco favoráveis. A Casa Branca percebe que perdeu a iniciativa estratégica e tenta, com este prazo, recuperar algum controlo sobre o conflito.

O problema dos EUA é que, neste momento, quem dita o ritmo é o Irão. Não porque seja militarmente superior, mas porque descobriu como transformar a sua vulnerabilidade numa vantagem estratégica. Teerão percebeu que não precisa de derrotar os Estados Unidos ou Israel no campo de batalha para impor custos intoleráveis. Basta-lhe interromper o tráfego no Estreito de Ormuz, atacar instalações petrolíferas, campos de gás natural e outras infraestruturas críticas com mísseis e drones que mantêm toda a região em estado de ansiedade e combustão permanente. O caos tornou-se uma ferramenta de política externa e, para já, uma ferramenta eficaz.

"A economia da guerra virou-se ao contrário e, neste momento, joga a favor de Teerão, a menos que o regime caia entretanto, com uma revolta da população, ou que deflagre uma guerra civil no país, um cenário que será possível, mas de probabilidade muito incerta."
"A economia da guerra virou-se ao contrário e, neste momento, joga a favor de Teerão, a menos que o regime caia entretanto, com uma revolta da população, ou que deflagre uma guerra civil no país, um cenário que será possível, mas de probabilidade muito incerta."EPA / Abedin Taherkenareh

Apesar de ter visto grande parte da sua capacidade militar convencional ser destruída, o Irão continua a dispor de milhares de mísseis e drones baratos, suficientemente numerosos para saturar qualquer sistema de defesa. A maioria é intercetada, mas isso é precisamente o ponto. Para travar drones que custam 20 mil dólares, os Estados Unidos e Israel são obrigados a disparar mísseis que custam quatro ou cinco milhões. A economia da guerra virou-se ao contrário e, neste momento, joga a favor de Teerão, a menos que o regime caia entretanto, com uma revolta da população, ou que deflagre uma guerra civil no país, um cenário que será possível, mas de probabilidade muito incerta.

A Administração Trump compreendeu esta realidade e sabe que o conflito entrou numa fase em que todas as opções são más. A primeira é declarar vitória e ir-se embora, numa espécie de “missão cumprida” reciclada. Porém, seria uma ficção, porque o Irão não tem qualquer incentivo para parar agora e Israel tem interesses próprios que nem sempre coincidem com os de Washington. A guerra continuaria, apenas mudaria a narrativa. Além disso, um cenário destes poderia ser um verdadeiro “momento Suez” para os Estados Unidos, um sinal inequívoco de declínio estratégico que não passaria despercebido nem aos aliados, nem, sobretudo, aos adversários.

"A Administração Trump tem três caminhos possíveis: declarar vitória e deixar a região a arder, enviar tropas terrestres para esmagar a resistência do Irão ou conter os danos e negociar o melhor acordo possível.”

A segunda opção é enviar tropas terrestres para esmagar de vez o Irão e garantir a liberdade de navegação no Estreito de Ormuz. Seria a forma mais direta de resolver o problema, mas também a mais cara, em vidas, em recursos e em legitimidade política. E abriria a porta a uma escalada cujas consequências ninguém consegue prever.

Resta a terceira via, negociar antes que tudo piore. É a opção racional, mas também a mais difícil. O Irão, consciente da sua vantagem assimétrica, exige reparações avultadas, garantias de que não será atacado e autorização para continuar com um programa nuclear “civil”. Para Washington, aceitar estas condições seria politicamente tóxico e estrategicamente arriscado. Mas recusá-las pode empurrar o conflito para um ponto de não-retorno.

O problema de Washington é que, enquanto o impasse persiste, o Irão continua a jogar no único tabuleiro que realmente domina, o da imprevisibilidade calculada. E, por agora, é isso que está a moldar o futuro da região e da economia global.

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