As revoltas em França não são ecos de 68, mas sim de 89. De 1789. E é a Europa que se trama

A iminente falência do Estado gaulês não é um acidente: é o sismógrafo adiantado do colapso europeu.
Ricardo Simões Ferreira

Editor Executivo Adjunto do Diário de Notícias e Diretor Executivo do Motor24

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Há uma preguiça intelectual confrangedora na forma como se descreve, habitualmente, o caos urbano francês. Ao primeiro caixote em chamas e aos primeiros cordões quebrados à porta dos liceus, jornalistas e cronistas correm a ressuscitar o fetiche do Maio de 68. Pintam os desordeiros como herdeiros românticos do Quartier Latin e embrulham a delinquência pura numa capa sedutora de contestação social.

Esta é uma impostura. O que se vê hoje em Paris, Marselha ou nos subúrbios de Saint-Denis nada tem a ver com 1968. Há meio século, vivia-se uma rebelião cultural e geracional de uma sociedade mais ou menos opulenta, que alegava pleno emprego e podia falar de utopias libertárias (ainda que nunca praticadas). O que se testemunha hoje pertence a um registo infinitamente mais sombrio. Quando bandos disparam morteiros contra polícias, agridem transeuntes indiscriminadamente e incendeiam as próprias escolas para alimentar o voyeurismo sádico do TikTok, não há qualquer filosofia, nem reivindicação laboral: existe apenas a derrocada moral, institucional e financeira de um Estado que, se não está já falhado, muito pouco falta para isso.

O eco que se ouve não vem de 68. Vem de 1789.

Quando a monarquia ruiu, abrindo as portas ao Terror, o Antigo Regime já era um Estado totalmente falido: dívida astronómica impagável, corporações parasitárias ciosas de privilégios e um monarca hesitante, cuja fraqueza encorajou a insurreição até a guilhotina descer. A Revolução não foi heroica contra um poder supremo; surgiu contra um regime já tão podre que, quando o povo libertou a Bastilha, descobriu que já só lá estavam sete detidos.

E o que veio a seguir? A Convenção não cortou despesa, imprimiu papel-moeda sem lastro (assignats), decretou controlos artificiais de preços e institucionalizou o cadafalso para calar quem contestasse o descalabro.

A França contemporânea olha-se neste mesmo espelho. Com o Estado a devorar 57% do PIB e uma dívida que já roça os 115% (mais de 3,3 biliões de euros), o Executivo comprou uma ficção de paz social despejando biliões num assistencialismo crónico que não tirou ninguém da pobreza – apenas alimentou clientelas e paralisou reformas. Dizer que a violência é obra de "infiltrados" é tapar o sol com uma peneira: ela é a secreção natural de um ecossistema apodrecido. Décadas de Politique de la Ville provaram que cosmética de betão não altera dinâmicas humanas se o mérito escolar for destruído para "não traumatizar". A isto somou-se uma pressão migratória contínua e desprovida de absorção, refratária aos valores ocidentais. Ao educar segundas e terceiras gerações no dogma da culpa pós-colonial, a República ensinou-as a odiar o solo em que nasceram.

As elites persistem no modelo porque, como habitualmente, as políticas públicas não se avaliam por resultados, mas pela proclamação de virtude moral. Ninguém paga pelos erros. Mas a complacência tem limites. Karl Popper alertou, no seu Paradoxo da Tolerância, que uma sociedade ilimitadamente tolerante com os intolerantes cava a sua própria sepultura.

A agravar isto tudo, França não cai no vácuo. Com a Alemanha desindustrializada, pelo suicídio energético, e Bruxelas reduzida a um museu tecnocrático, que apenas regula o que os outros criam, o castelo de cartas gaulês é um sismógrafo adiantado da Europa.

Continuarmos a assistir ao incêndio francês com a cobardia habitual resultará em acordarmos numa Europa em cinzas – sem prosperidade e sob a bota da barbárie que o continente se recusou a combater. Mas este combate não se faz, como dizem alguns, com mais “autoridade do Estado”. Na metáfora de 1789, isso é a receita para o “terror”.

O que França e a Europa necessitam é do regresso ao seu tríptico de progresso: recusa intransigente de qualquer culpa histórica, que não existe – a recuperação do orgulho lúcido na matriz civilizacional que gerou a ciência moderna; consciência do dever de autodefesa – com o restabelecimento de fronteiras seguras, uma autoridade dissuasora e tolerância zero para com o crime e a insurreição; e a primazia do Indivíduo e do Estado de Direito – através da proteção da propriedade, dos contratos e do mérito contra a asfixia do monstro fiscal e burocrático que destrói qualquer capacidade de inovação.

Será ainda a sociedade atual capaz de acordar para esta realidade, ou teremos de passar de novo pelo horror da guilhotina antes de percebermos que este é o único caminho possível para a liberdade?

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