As redes sociais segundo Bruxelas

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No portal oficial da Comissão Europeia, leio um texto de Bruxelas publicado a semana passada (10 de julho). Com um título motivador: “Comissão considera, a título preliminar, que a conceção geradora de dependência do Instagram e do Facebook viola o Regulamento dos Serviços Digitais.” Em causa está o facto de a Meta (proprietária do Facebook e de várias outras plataformas, incluindo o Instagram e o WhatsApp) não ter acautelado os efeitos “sociais” das suas “redes”.

Escusado será dizer que não se trata de julgar quem usa, ou não usa, tais dispositivos. O texto surge acompanhado por uma eloquente citação de Henna Virkkunen (vice-presidente executiva da Comissão responsável pela Soberania Tecnológica, Segurança e Democracia). A saber: “A proteção da saúde física e mental dos europeus deve ser uma prioridade para as plataformas de redes sociais. O Regulamento dos Serviços Digitais prevê um quadro claro para responsabilizar as plataformas pela conceção geradora de dependência e pelos efeitos dos seus serviços. Estamos totalmente empenhados em fazer cumprir a nossa legislação na Europa.”

As boas intenções do texto não podem deixar de suscitar algumas memórias paradoxais sobre o entendimento político do “fenómeno” Facebook & afins. Importa não esquecer que a expressão ”redes sociais”, generalizada a partir da mudança de século, resulta de um roubo simbólico que nunca foi devidamente encarado no território, político por excelência, da Educação.

Matthew Broderick em 'Jogos de Guerra' (1983).
Matthew Broderick em 'Jogos de Guerra' (1983). FOTO: D.R. / Arquivo

No sentido mais genuíno, redes sociais foram durante séculos entidades como a família de cada cidadão, o espaço profissional dos que partilham uma determinada forma de trabalho, porventura a instituição religiosa a que alguns possam pertencer. Como e, sobretudo, em nome de quê passámos a usar, automaticamente, sem reflexão, o adjetivo “social” para descrever e, mais do que isso, legitimar como um progresso civilizacional, o facto de pertencermos a uma “rede” digital? Que “social” é esse em que podemos ser “amigos”, sem rituais de apresentação, nem partilha de ideias, de um faroleiro da Noruega ou um pastor da Mongólia? Como é que semelhante infantilismo existencial foi vendido (e acolhido, Santo Deus!) como o êxtase da transparência humana?

O Facebook foi lançado em 2004. Quer isto dizer que 22 anos depois temos um documento (“a título preliminar”) que nos alerta para gravíssimos problemas que foram contaminando a nossa vida, pública e privada, perante um obsceno vazio de pensamento político. Claro que tem havido figuras políticas e vários governos a dar mostras de preocupações, e a promover medidas, para contrariar o esvaziamento social promovido pelas ditas redes. O certo é que o voluntarismo burocrático - fiscalizar & sancionar -, mais do que tardio, decorre de um total alheamento das questões educacionais que estavam em jogo.

A maioria dos políticos gosta de aparecer em consagrações de artistas, mas dá muito pouca atenção ao modo como alguns desses artistas vão observando, por vezes de modo profético, as convulsões do mundo. No campo do cinema, nem sequer estou a pensar apenas na obra-prima de David Fincher, A Rede Social (2010), escrita por Aaron Sorkin, sobre o nascimento do Facebook, não como um modelo de comunicação, mas uma estratégia de negócio.

Penso, em particular, no premonitório Jogos de Guerra, realizado por John Badham em 1983 (um ano antes do nascimento de Mark Zuckerberg). Em contagiante tom de “thriller”, aí se demonstrava que a generalização dos computadores, em particular no quotidiano dos adolescentes, anunciava novos comportamentos, diferentes valores sociais, enfim, também uma nova linguagem. Porquê? Porque, como escreveu Ludwig Wittgenstein há mais de um século, “os limites da minha linguagem são os limites do meu mundo” – eis uma ideia interessante para partilhar com os amigos.

Jornalista

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Proteger a saúde física e mental dos europeus? Eis um programa que não pode ignorar as questões básicas de Educação.”

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