As lições da antiga Legação Americana em Tânger

Leonídio Paulo Ferreira

Diretor-adjunto do Diário de Notícias

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Em Tânger há um edifício que hoje funciona como centro cultural e museu, mas que durante mais de um século foi a Legação Americana em Marrocos. Oferecido em 1821 aos Estados Unidos por um sultão marroquino, é o único Monumento Histórico Nacional americano no estrangeiro, como destaca o próprio Departamento de Estado. O site do equivalente americano ao Ministério dos Negócios Estrangeiros relembra também que logo em 1777 um outro sultão da Dinastia Alauita, a mesma a que pertence o atual rei Mohammed VI, autorizou os navios com bandeira americana a entrar livremente nos portos do reino. A Declaração de Independência tinha apenas um ano e não era certo que a rebelião das 13 colónias contra Jorge III de Inglaterra fosse bem sucedida, mas esse pioneirismo vale a Marrocos ser referido como o primeiro país a reconhecer a nova nação. Seguiu-se, ainda no século XVIII, um Tratado de Paz e Amizade que é considerado o mais antigo em vigor dos Estados Unidos.

Engana-se quem pensar que o decreto a autorizar a entrada nos portos, o tratado de amizade ou a oferta do edifício de traça mourisca são apenas curiosidades históricas. A relação próxima entre Marrocos e os Estados Unidos é antiga, mas certamente também atual. No dia da celebração da ascensão ao trono de Mohammed VI, quando todas as atenções estavam centradas na crise migratória em Ceuta, uma mensagem do secretário de Estado Marco Rubio, na linha de uma do próprio presidente, reafirmava com clareza a ligação com dois séculos e meio, mas também a geopolítica do século XXI.

“Há quase 250 anos que os Estados Unidos e Marrocos partilham a mais longa amizade da história americana. Trata-se de uma parceria sólida e duradoura, construída sobre valores partilhados e um compromisso comum com a paz, a segurança e a prosperidade”, afirmou Rubio.

A mensagem destinada a assinalar o Dia do Trono (a 30 de julho de 1999 Mohammed VI foi entronizado, sucedendo a Hassan II) prosseguia: “Sob a liderança do presidente Trump, os Estados Unidos têm sido inequívocos: reconhecemos a soberania marroquina sobre o Saara Ocidental e apoiamos a proposta de autonomia séria, credível e realista de Marrocos como a única base para uma solução justa, duradoura e mutuamente aceitável. Qualquer outro caminho prolonga o statu quo e é inaceitável. A verdadeira autonomia sob a soberania marroquina proporciona a esta região e ao continente a oportunidade de finalmente avançarem após 50 anos. Esta disputa deverá terminar agora, e os Estados Unidos continuarão a lutar por este objetivo. A diplomacia americana mantém-se focada numa solução mutuamente benéfica para todos os que consideram esta região como a sua casa.”

Rubio, obviamente, também salientou a adesão de Marrocos aos Acordos de Abraão, o plano americano para promover a normalização de relações entre os países árabes e Israel. Foi em 2020 que Marrocos deu esse passo, ainda durante a primeira Administração liderada por Donald Trump. Foi também nessa primeira presidência Trump que surgiu a tomada clara de posição de Washington em relação à ex-colónia espanhola (incentivo para a normalização com Israel), sem que nos quatro anos da Administração liderada por Joe Biden se revertesse. Hoje, vários países europeus, entre os quais Portugal, Espanha e França reconhecem a proposta marroquina de autonomia alargada como a mais viável, mesmo que continuem a apelar a uma solução no quadro das Nações Unidas.

A Frente Polisario, que luta pela independência do Saara Ocidental, tem tido dificuldades em travar os ganhos diplomáticos marroquinos, inclusive em África, apesar de continuar a contar com o apoio da Argélia, solidária desde sempre com a causa sarauí. O referendo que deveria ter-se realizado em 1992, depois da paz negociada pela ONU, nunca avançou por depender de um acordo entre as partes sobre quem teria direito a votar.

Nesta questão do Saara Ocidental, o apoio convicto americano tem especial valor para Marrocos, pois a influência de Trump junto de vários líderes traz também reconhecimentos, como o anunciado agora pela Colômbia aquando da posse do novo presidente, Abelardo de la Espriella. O ministro dos Negócios Estrangeiros marroquino, Nasser Bourita, que viajou até ao país sul-americano, ouviu a posição colombiana diretamente da voz do homólogo, Omar Bula Escobar.

Se Marrocos se revelou base importante para as operações americanas na Segunda Guerra Mundial, no tempo ainda do Protetorado Francês, para subtrair o controlo da África do Norte a alemães e italianos, verdadeiramente decisivo foi o que se passou após 1956, quando o reino recupera a independência plena. Durante as décadas de conflito com o Bloco Pró-Soviético, Marrocos esteve claramente no lado do bloco pró-americano, com Hassan II, rei a partir de 1961, a ser uma personagem influente da Guerra Fria (lidou com oito presidentes dos Estados Unidos), e paralelamente no conflito do Médio Oriente (não esquecer que centenas de milhares de israelitas descendem de judeus marroquinos).

O facto de a Argélia, depois do prestígio de ganhar a Guerra da Independência à França, se ter tornado um sólido aliado de Moscovo, evidenciou ainda mais o papel de Marrocos. E a intensa rivalidade que persiste entre os dois vizinhos norte-africanos vem muito dessa época de clivagem ideológica, com o lado marroquino a simbolizar o conservadorismo e o lado argelino a ser visto então como um bastião progressista, acolhendo líderes dos movimentos de libertação nacional africanos, e mesmo opositores à ditadura portuguesa.

Esta estreita aliança entre Marrocos e os Estados Unidos deve ser analisada com atenção pela vizinhança, e não falo apenas da Argélia, mas igualmente dos países do sul da Europa, e em especial Espanha, com as suas duas “plazas de soberania” no Norte de África e o desafio migratório permanente vindo do sul.

É uma estreita relação que não pode ser vista como um mero fenómeno da era Trump. Ainda que o atual presidente americano, tanto no mandato entre 2017 e 2021 como neste iniciado em 2025, tenha mostrado um tal entusiasmo com a relação que até vai ser recompensado com o batismo com o seu nome de uma autoestrada que percorrerá o litoral. Foi o próprio Trump a anunciar, e depois houve confirmação do lado marroquino.

O antigo edifício diplomático em Tânger, cidade cosmopolita que com o seu porto pretende simbolizar a era de desenvolvimento económico do reinado de Mohammed VI, é, pois, muito mais do que um museu. Funciona como um testemunho de que a História conta e se mistura com a atualidade nas grandes decisões geopolíticas. Basta olhar para a placa com a águia americana que ainda hoje se vê no souk de Tânger.

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