Bad Bunny esteve em Portugal para dar dois concertos da sua digressão Debí Tirar Mas Fotos. O artista porto-riquenho causa sempre grande impacto, como se viu na sua icónica exibição no Super Bowl. Tal como nesse espetáculo, que apelou às suas raízes hispânicas, também a capa do álbum que dá o nome à digressão, em que se veem duas cadeiras de plástico e uma densa vegetação tropical, convoca o calor humano e a proximidade que caracteriza os latinos.Os bancos no espaço público são um convite à conversa, ao convívio e à confraternização. Mas, infelizmente, Lisboa tornou-se uma cidade muito pouco propícia ao encontro e à vida em comunidade pela manifesta falta de condições para que isso possa acontecer.Nada que preocupe Carlos Moedas, interessado apenas em aumentar a sua propaganda nas redes sociais. Mais interessado em aparecer do que fazer. Desta vez protagoniza um vídeo inspirado na capa do álbum de Bad Bunny, com as suas cadeiras brancas de plástico, para dar as boas-vindas ao cantor, em evidente contradição com a realidade que os lisboetas vivem todos os dias, de uma cidade cada vez menos acolhedora.Hoje, em Lisboa, é difícil fazer algo tão simples, mas tão essencial para a nossa qualidade de vida, como sentar num banco ao ar livre, numa cidade arborizada que proteja das ondas de calor, numa cidade iluminada, com praças, espaços verdes e zonas pedonais, com bebedouros públicos que assegurem acesso gratuito a água potável para todas as pessoas.Em Lisboa, a Câmara não cuida do espaço público. As ruas e os passeios estão sujos e esburacados, os jardins ao abandono e as zonas pedonais escasseiam. As árvores estão negligenciadas e os jacarandás foram mesmo arrancados, apesar de 50.000 pessoas terem assinado uma petição para tentar evitar que isso acontecesse. A iluminação é péssima, há ruas inteiras às escuras, provocando insegurança e intranquilidade.Mas não se trata só de uma total incapacidade de execução. É uma escolha política: em vez de uma cidade desenhada para estar, conviver e descansar, optou-se por uma cidade desenhada para circular, consumir e atravessar. O modo como se planeia uma cidade revela que formas de vida coletiva são valorizadas. Quando o espaço urbano cria condições para viver, permanecer e encontrar o outro, produz relações de confiança e de identificação. Quando essas condições desaparecem, a cidade torna-se mais fragmentada e mais individualista.Tem de se garantir a todos o direito à cidade, independentemente da idade, condição física, rendimento ou estilo de vida, proporcionando onde descansar com conforto sem precisar de consumir. O direito a sentar não pode depender da capacidade financeira para pagar um café. A mercantilização do espaço público deve ser travada.A atual gestão de Lisboa revela uma visão fragmentada, individualista, excludente e até hostil do espaço urbano. A substituição de bancos nas paragens de autocarros por encostos, a ausência de uma estratégia integrada de mobiliário urbano, a degradação ou desaparecimento silencioso de pequenos equipamentos e a implementação de uma arquitetura defensiva e fechada mostram uma cidade que é apenas um lugar de circulação e de passagem e não de permanência e de pertença.Por isso, falar de bancos, praças, árvores, sombra e equipamentos públicos não é discutir mobiliário urbano, é discutir democracia urbana. Ou a falta dela.