Um pouco por toda a Europa vemos uma distância crescente entre o que preocupa as pessoas e o que domina o debate político. A política, espaço onde se discutem os problemas coletivos e se definem prioridades públicas, nem sempre reconhece as preocupações tal como são vividas. Muitas vezes, interpreta-as a partir das respostas que já tem.
As pessoas preocupam-se com o salário que não chega ao fim do mês, com a renda da casa, com uma consulta que tarda, com o futuro dos filhos ou com a possibilidade de envelhecer com autonomia. Preocupam-se com não saber se amanhã viverão melhor ou pior do que hoje.
A política conhece estas angústias. Estão nos discursos e nos programas eleitorais. Mas frequentemente transforma-as em argumentos para confirmar posições anteriores. Para uns, a resposta é sempre mais Estado e para outros será mais mercado. A realidade acaba por servir para confirmar as certezas de cada campo.
Não é a diversidade de interpretações que está em causa. Sem ela não haveria democracia. O problema começa quando as respostas deixam de ser hipóteses a testar e passam a ser verdades que os factos não podem contrariar.
Quem não consegue pagar uma casa não procura uma discussão ideológica sobre a habitação. Quer um lugar onde viver. Quem espera meses por uma consulta não começa por perguntar se o prestador deve ser público, privado ou social. Quer ser atendido a tempo e com qualidade. Quem teme perder o emprego quer saber como poderá continuar a viver com dignidade.
A política vive também num tempo diferente. Um episódio parlamentar ocupa dias de debate sem alterar a vida quotidiana. Uma frase transforma-se numa crise. Uma disputa partidária ganha dimensão nacional. Entretanto, os problemas que condicionam as escolhas de uma família mantêm-se.
O que é urgente no debate político, nem sempre é importante fora dele.
Há ainda uma diferença no olhar sobre esses problemas. A política separa habitação, saúde, educação, salários e transportes. As pessoas vivem tudo ao mesmo tempo. Um salário baixo torna a casa inacessível. Uma deslocação longa rouba tempo à família. Uma doença sem resposta agrava a insegurança no trabalho. A vida não está organizada por ministérios.
As escolhas políticas são indispensáveis. Mas os instrumentos não podem valer mais do que os resultados. Tony Blair resumiu esta atitude na expressão “what matters is what works” (o que importa é o que funciona). Não significa abdicar de princípios. Significa deixá-los orientar os objetivos, sem transformar uma solução preferida num fim em si mesmo. A coerência ideológica não compensa uma resposta que falha.
É nesta distância que cresce a desconfiança. Quando a política oferece apenas explicações a quem procura soluções, pode parecer indiferente. Quando substitui respostas por slogans, deixa espaço a promessas fáceis. E quando trata cada dificuldade como prova de uma proposta ideológica, deixa de ouvir o que a realidade lhe está a dizer.
A democracia precisa de convicções, escolhas e alternativas legítimas. E precisa igualmente de corrigir o que não funciona. Ouvir não é apenas recolher argumentos para responder. É admitir que o que se escuta pode obrigar a mudar de posição. E, para a sobrevivência da própria democracia, a pergunta mais importante não é o que pensam as pessoas sobre as propostas da política, mas o que a vida das pessoas revela sobre as prioridades da política.