Aritmética do crime e o exemplo dinamarquês

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Nas últimas semanas avolumaram-se os episódios de insegurança nas cidades de Lisboa e Porto. Esfaqueamento até à morte de um jovem no Cais do Sodré, homem baleado na Cova da Moura, quatro homens esfaqueados em Sacavém, desacatos graves entre grupos na cidade do Porto, turista sueca atingida por uma bala perdida na Baixa lisboeta.

São sinais preocupantes de um possível aumento da criminalidade e da insegurança, sobretudo nas cidades mais populosas do país.

A resposta das autoridades a esta realidade segue o velho paradigma português: casa roubada, trancas à porta.

Logo após o incidente com a bala perdida que atingiu a turista sueca em Lisboa vimos um ror de polícias na zona. Era o suposto reforço policial, que durou apenas alguns dias. Depois é o esquecimento da comunicação social, da população e tudo volta ao mesmo. Não há policiamento de proximidade. Não se vê um polícia na rua. Não se vêem viaturas a circular em actividade policial preventiva. Quem quiser encontrar um polícia tem de ir às esquadras.

Não sabemos, ou o comum dos mortais não sabe, quem pratica os crimes em Portugal. As autoridades policiais saberão, mas não o divulgam com a clareza e a transparência a que todos temos direito.

O Relatório Anual de Segurança Interna (RASI) português não divulga a nacionalidade de quem comete os crimes. É uma questão que se arrasta há anos e não foi ainda alterada. Apesar da nova configuração sociológica do país, com um aumento de 14% da população devido à imigração, o RASI continua a não revelar a nacionalidade de quem pratica os crimes.

Há mais um milhão e 400 mil cidadãos de diferentes nacionalidades em Portugal, mas o RASI continua a esconder-nos a nacionalidade de quem pratica os crimes. Se são portugueses sabemos que o são. Mas quanto às restantes nacionalidades recebem o título genérico de estrangeiros.

Não é assim na esmagadora maioria dos países europeus. Tomemos o exemplo da Dinamarca. Este país coloca no seu Relatório Anual de Segurança Interna os seguintes elementos: país de origem, idade, sexo, município, tipo de crime, estatuto socio-económico e grau de educação. Mas os dinamarqueses vão ainda mais longe. Identificam os descendentes de imigrantes, ou seja as segundas gerações. Com esta classificação a Dinamarca consegue um perfil rigoroso de quem pratica os crimes.

A Dinamarca tem uma população de imigrantes e descendentes de 16,8%, portanto superior à nossa. A sua classificação vai ainda ao detalhe de uma divisão por continentes e áreas geográficas. Deste modo a sociedade dinamarquesa tem um retrato fiel e credível da origem da criminalidade.

Por cá é o cinzentismo da habitual prática do “politicamente correcto”.

O nosso RASI persiste há anos na ocultação da nacionalidade de quem pratica crimes quando se trata de cidadãos estrangeiros.

É uma opção errada que não possibilita ao país ter uma radiografia rigorosa da criminalidade em Portugal.

A criminalidade grave em Portugal baixou 1,4% de 2024 para 2025. Mas já os homicídios voluntários subiram 10, 1 % . Em 2024 houve 89 homicídios voluntários e em 2025 o número de homicídios voluntários foi 98.

A bem da transparência a que todos os portugueses têm direito temos de saber com rigor quem pratica crimes em Portugal. Se são portugueses é vital saber o seu enquadramento socio-económico, o seu grau de escolaridade, o local onde vivem. Se são estrangeiros não chega classificá-los apenas assim. Temos direito a saber qual a sua nacionalidade, bem como o seu perfil social e educacional.

É pois importante seguir o exemplo dinamarquês e alterar a filosofia descritiva do nosso Relatório Anual de Segurança Interna. Saber quem pratica crimes em Portugal, a nacionalidade, o perfil sociológico e educacional é absolutamente necessário para um combate eficaz à criminalidade e uma radiografia certeira do crime em Portugal.

Até ao próximo dia 11 de setembro. Fiquem bem.

Escreve sem aplicação do Acordo Ortográfico

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