O recente Encontro de Ciência e Inovação, realizado em Lisboa nos dias 15 e 16 de julho, marcou a apresentação pública da nova agência AI2, que tem como ambição reorganizar e reforçar o sistema científico e de inovação em Portugal. O momento é relevante e falar de ciência é sempre atual, ainda mais quando enfrentamos tantas incertezas e desafios globais.Para quem acompanha a evolução da ciência em Portugal nas últimas décadas, muitos dos temas discutidos no Encontro soam familiares. A necessidade de aproximar ciência e economia, de reforçar a transferência de conhecimento, de promover interdisciplinaridade, de simplificar processos e de investir em áreas estratégicas não é nova. Pelo contrário, faz parte do discurso político e institucional pelo menos há cerca de três décadas.Lembro-me bem quando, enquanto jovem estudante de doutoramento nos EUA, conheci uma associação de pós-graduados que tinha sido criada pouco tempo antes (a Portuguese American Postgraduate Society, PAPS), e que já promovia discussões sobre inovação, financiamento de ciência, posições académicas, formação avançada, e outros temas afins. Já na altura se falava da necessidade de promover mais transferência de tecnologia e conhecimento nas Universidades Portuguesas, e sobre se o país devia definir áreas científicas estratégicas. A questão que se impõe, portanto, não é tanto o diagnóstico, mas a capacidade de execução – e a coragem para introduzir mudanças que ultrapassem ciclos de repetição.A criação da AI2 representa uma tentativa de integrar ciência e inovação numa visão mais coerente. Essa integração é desejável, sobretudo num contexto internacional em que a competitividade científica está cada vez mais ligada à capacidade de transformar conhecimento em valor económico e social. No entanto, importa evitar um risco recorrente: o de subordinar a ciência a agendas de curto prazo, orientadas exclusivamente para resultados imediatos. Isto aconteceu demasiadas vezes no passado, com programas que prometeram muito, mas que funcionaram como remendos para um sistema que tem problemas de fundo.A história mostra-nos que os sistemas científicos mais robustos são aqueles que conseguem equilibrar investimento em ciência fundamental com mecanismos eficazes de inovação. A investigação de base, muitas vezes sem aplicação previsível, é a fonte de descobertas que mais tarde transformam sociedades e economias. Reduzir o seu financiamento, ou condicioná-la excessivamente a prioridades temáticas, seria comprometer o futuro em nome de ganhos imediatos. Diria mesmo, que seria falta de visão.Neste contexto, uma das mensagens mais importantes que deveria emergir deste novo ciclo é clara: não há inovação sustentável sem investimento continuado em formação avançada e em ciência fundamental. Portugal fez um percurso notável na qualificação dos seus recursos humanos, formando uma geração altamente preparada e internacionalizada. No entanto, persistem fragilidades evidentes: desde a precariedade das carreiras científicas, aos financiamentos demasiado baixos, e à dificuldade em atrair e reter talento por conta dos salários pouco competitivos. Sem condições estáveis e atrativas, o investimento na formação acaba por beneficiar outros sistemas científicos mais competitivos.A escala dos financiamentos científicos é outro grande problema. A ciência portuguesa permanece subfinanciada, quando comparada com países com os quais pretende competir. Não basta reorganizar estruturas ou introduzir novas agências se os níveis de investimento não acompanham essa ambição. Projetos de excelência exigem financiamento adequado, previsível e, em muitos casos, significativamente mais elevado do que aquele que tem sido disponibilizado.Recentemente, participei em candidaturas com parceiros Europeus onde Portugal financia até 100.000€ para 3 anos, sendo que outros parceiros poderiam pedir 300.000-400.000 para o mesmo período. Importa notar que, tirando os salários, nenhum dos custos da investigação são mais baratos do que noutros países. Sendo assim, dá que pensar sobre a seriedade dos financiamentos em Portugal…É aqui que a AI2 poderá – e deverá – fazer a diferença. Mais do que redistribuir recursos existentes, importa pensar em novos modelos de financiamento, mais flexíveis e adaptados à diversidade do sistema científico.Isso pode incluir programas de maior escala, com financiamento robusto e de longo prazo, capazes de competir internacionalmente e de atrair talento. Se os financiamentos são mais reduzidos, por que não criar programas com períodos de financiamento mais longos, passando de 3 para 5 anos, para, pelo menos, dar mais estabilidade aos investigadores? Pode também passar por dotar instrumentos que incentivem o risco científico, apoiando ideias verdadeiramente disruptivas, mas com financiamentos mais sérios.A articulação com o setor empresarial, frequentemente apontada como uma prioridade, também exige uma abordagem mais realista. A colaboração entre academia e indústria não se decreta – constrói-se. E constrói-se com tempo, confiança e incentivos adequados. Simplificar processos, reduzir burocracias é importante, mas não suficiente. É necessário criar condições para que as empresas vejam na ciência um parceiro estratégico e não apenas um prestador de serviços.O Encontro de Lisboa teve o mérito de reunir diferentes atores e de promover um espaço de diálogo. No entanto, a repetição de mensagens já amplamente conhecidas reforça a ideia de que o principal desafio não está na definição de objetivos, mas na sua concretização. Portugal tem produzido estratégias consistentes e bem fundamentadas; o problema tem sido, demasiadas vezes, a sua implementação parcial ou descontínua. Aqui, a dimensão política não pode ser ignorada. A estabilidade das políticas científicas é essencial para qualquer sistema que opere numa lógica de médio e longo prazo. Mudanças frequentes de prioridades, interrupções de financiamento ou reconfigurações institucionais sucessivas criam incerteza e dificultam o planeamento estratégico. A AI2 terá de afirmar-se como uma estrutura credível e estável, capaz de resistir a ciclos políticos e de garantir continuidade.Finalmente, importa não esquecer a dimensão territorial e institucional. Um sistema científico forte não se constrói apenas a partir dos grandes centros, mas sim através de uma rede diversificada de instituições que contribuam de forma complementar, e onde se colhem dados que podem ser depois integrados para potenciar o sistema. Valorizar essa diversidade será essencial para garantir coesão e maximizar o potencial do país como um todo.O Encontro de Ciência e Inovação deixou, assim, uma mensagem dupla. Por um lado, há uma ambição renovada e um reconhecimento claro da importância da ciência para o futuro do país. Mas, por outro lado, para nós que já cá andamos há algum tempo, deixou também a ideia de que não devemos tentar reinventar a roda, e de que precisamos de mexer no sistema a fundo, para que se possam concretizar as boas ideias que muitos dos intervenientes deixaram.Se a AI2 conseguir romper com o ciclo de repetição e introduzir mudanças reais – reforçando o investimento, valorizando a ciência fundamental e apoiando seriamente a sua aplicação quando for possível, criando novos instrumentos de financiamento e garantindo estabilidade – poderá marcar um ponto de viragem. Caso contrário, arrisca-se a ser apenas mais um capítulo numa história já longa de boas intenções e resultados aquém do desejado.A ciência portuguesa não precisa apenas de novas estruturas, de novas maquilhagens. Precisa, acima de tudo, de compromisso, coragem, escala e continuidade.