António Ramalho Eanes já é eterno

Manuel José Guerreiro

Presidente da Caixa de Crédito Agrícola Mútuo de Torres Vedras

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Ao longo da minha vida, em tantas ocasiões, tenho concluído a estranha dificuldade de agradecermos em vida aos que deixam marca – estamos tão embrenhados na nossa própria existência que esquecemos de valorizar, sem reticências ou advérbios, figuras exemplares. Respeitar a memória também passa pela defesa desta premissa, e estar disponível para o futuro obedece igualmente à fidelidade a esse princípio.

Hoje não vos surpreendo, mas talvez nunca como hoje nos possamos aproximar das palavras que não posso adiar, deixar para amanhã, não as escrever por medo de ser óbvio ou redundante.

Agradeço-lhe ter vindo a Torres Vedras, numa descida íngreme no Centro Paroquial , agarrei-lhe o braço de 90 anos, sorriu e disse-me: “Não me digas que vais cair?…” E também recordo a bonita mensagem da Manuela, que impressionou, pelo humanismo, os 450 convidados estrangeiros no GICS-2025. Embora doente não quis deixar de participar.

Desejo defender um farol, um dos poucos, porventura o maior entre os que nos iluminaram nos últimos 50 anos: António Ramalho Eanes. Se tivesse de o definir por uma única frase optaria por: aquele que nunca se afastou daquilo que defendeu, o que nunca se alienou de si próprio.

É o que sinto ser a verdade: ele foi sempre o mesmo. A comandar os seus homens na Guiné, a enfrentar a morte no 25 de Novembro de 1975, a evitar a guerra civil, criando pontes inimagináveis, a criar as condições para uma transição pacífica, a tornar-se o Presidente de todos os portugueses, na humildade de ter voltado a estudar, na coragem de abdicar de regalias, de lugares, de homenagens e salamaleques, no modo como disse ao país que seria o primeiro, em caso de ser internado nos cuidados intensivos durante a pandemia, a sacrificar a hipótese de ser salvo por um ventilador que só deveria ser usado em portugueses mais jovens.

Não é normal que um militar, habituado a fazer a guerra, tenha sido o homem que mais associamos à paz, ao apaziguamento de conflitos, à tolerância. Olhamos para os pecados mortais e não há nenhum que lhe assente. O da Inveja? É um sentimento impossível quando nele pensamos. O da Preguiça? Bem, não cola: é a antítese. O da Soberba? Se há alguém que insistiu em ser um entre iguais, foi ele. O da Gula? Também não, ele é o que escolheu o sacrifício. O da Avareza? Ele que abdicou de uma pensão milionário e do lugar de Marechal? O da Ira? Quando foi ele a evitar que o país se irasse? O da Luxúria? Bem, concluíram certamente o mesmo que eu.

António Ramalho Eanes é um português quinhentista.

O do sonho, da coragem, da identidade nacional, de um cosmopolitismo nacional, mas tolerante, da defesa da língua, da liderança responsável pelo exemplo. Tem um pouco de Cipião, o africano que conquistou Cartago e salvou Roma. Um militar implacável e estrategicamente brilhante, mas que depois, no silêncio das suas paredes, defendia o conhecimento e a cultura como princípio basilar de todo o poder.

Por fim, é um cooperativista. Ele e Manuela Eanes, sua mulher e artífice do Instituto de Apoio à Criança, que tirou da rua e de um destino cruel muitos milhares de miúdos que tinham nascido com o bilhete errado. António e Manuela defenderam a Economia Social, o mutualismo, as misericórdias, as cooperativas, uma outra via que não era capitalista, mas também não era comunista. Um modelo económico de rosto verdadeiramente humano.

António Ramalho Eanes é exemplo de vida para todos aqueles que anonimamente procuram o bem. Arrisco escrever, da sua vida também, da nossa.

Um homem maior.

Quando o homenageamos as palmas nunca parecem poder acabar, como se as pessoas tivessem medo que ele próprio, um dia, termine e que não as possa ouvir ou que o fim das palmas possa irritar o destino e levá-lo de nós. Não há esse perigo porque o general dos generais, o presidente dos presidentes, é eterno.

manuel.guerreiro@ccamtv.pt

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