António José Seguro. Um discurso ao sabor da corrente!

Publicado a: 

Já escrevi, meses atrás, em crónica anterior, que não me parecia ser uma boa solução a escolha política que Luís Montenegro fez de governar sozinho, saltitando em alianças pontuais, ora com o PS, ora com o Chega.

É uma escolha que não dá segurança ao país, nem lhe dá a maioria necessária para a introdução de medidas estruturais que modernizem a dinamizem a sociedade portuguesa.

As consequências desta opção do primeiro-ministro estão agora a bater-lhe à porta.

À direita, Montenegro recebe a pressão de Passos Coelho que, vamos sabendo, não descartaria um entendimento com o Chega. E, recentemente, tomámos conhecimento de que há históricos do PSD, politicamente mais ao centro (José Roquete, Miguel Cadilhe, Silva Peneda), que gostariam de ver o partido a optar por uma solução mais moderada, tipo bloco central.

A escolha solitária de Montenegro já atirou o PSD para terceira força no panorama político, de acordo com as últimas sondagens. A estratégia isolacionista do primeiro-ministro parece, pois, não estar a resultar. Veremos, no futuro, se Montenegro, com a escolha que fez, não vai acabar “a meio da ponte” ou a fazer uma “espargata política”!

O tema das alianças políticas com o objectivo de conferir estabilidade ao país esteve presente no discurso do Presidente da República, no 5 de Outubro, que saudou a aproximação do Executivo ao Partido Socialista com a finalidade da aprovação do Orçamento do Estado para 2027. José Luís Carneiro, numa postura que é de louvar, anunciou já a abstenção socialista mesmo sem o documento ser público. É gratificante ter um partido da oposição que demonstra sentido de Estado. José Luís Carneiro marcou pontos.

O discurso de António José Seguro foi de uma linearidade institucional confrangedora. Não houve apelos à ética republicana, o que surpreende se olharmos para os casos políticos que têm atingido o Governo.

Seguro escolheu uma linha de pedagogia e, aqui, tocou em aspectos que são importantes no funcionamento da democracia. Um desses aspectos é esse irritante político que consiste no facto de os partidos, com carácter sistemático, se recusarem a despir a camisola partidária em prol de entendimentos indispensáveis para construir soluções de futuro para o país.

É um dos aspectos que mais reflecte a imaturidade da nossa classe política e impede uma continuidade de soluções estáveis e duradouras.

O Presidente da República está, manifestamente, preocupado com a estabilidade política, o que se compreende à luz do que está a verificar-se um pouco por essa Europa fora. Veja-se a barbárie francesa, com manifestantes que queimam escolas, património público e privado, num exercício de selvajaria. Ou a situação em Espanha que, depois da invasão migratória em Ceuta e do problema da habitação, atirou borda fora com o governo socialista de Pedro Sánchez. Dois países que em breve, provavelmente, estarão nas mãos de forças de direita alterando, substancialmente, o desenho político da União Europeia.

Com este discurso do 5 de Outubro, António José Seguro não quis afrontar o Governo, nem mostrar as “chagas” das feridas políticas do Executivo. Foi pedagógico, foi construtivo, foi conciliante. Fez um discurso escutado por um Governo da Aliança Democrática. Mas este mesmo discurso poderia ser usado para um eventual governo socialista.

Bastante curiosa é a referência do Presidente da República à crise energética e à necessidade de uma resposta europeia coordenada que proteja as pessoas e a economia. Ouviste Costa? Então leva lá o recado à Ursula von der Leyen!!

O Presidente da República, neste 5 de Outubro, fez o discurso que é a marca de António José Seguro. Tranquilo, sem fazer grandes ondas, sem espicaçar o Governo, sem oscilações ou novidades políticas. Um discurso linear, institucional, calmo, feito ao sabor da corrente..

Escreve sem aplicação do Acordo Ortográfico 

Diário de Notícias
www.dn.pt