A novelização da guerra 

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Cada vez há mais comentadores televisivos da guerra — das guerras. Não tenho dúvidas sobre as suas competências, incluindo o grau de informação que possuem. Ainda assim, não posso deixar de me perguntar se, individualmente ou dialogando entre si, o seu trabalho vai sendo pontuado por alguma reflexão sobre os efeitos concretos — comunicacionais, sem dúvida — das suas análises. 

Confunde-me e perturba-me o facto de falarem, por vezes com um sorriso nos lábios, daquilo que mais parece ser uma partida caseira de Batalha Naval — dir-se-ia que tudo está a acontecer num tabuleiro de marionetas que, por artes mágicas, adquiriu a coerência e o determinismo de uma narrativa transparente e objetiva. O que está em causa, entenda-se, não são, insisto, as qualidades do saber seja de quem for, sendo escusado acrescentar que partilhamos, seguramente, a mesma compaixão perante os horrores que todos os dias nos são apresentados. 

Como em outras áreas de informação (com evidente destaque para os patéticos dramas do futebol), tudo se passa como se os clips que foram, ou vão ser, apresentados existissem como roteiros unívocos da complexidade do mundo à nossa volta. Com frequência, entra-se num “espaço” de análise uma fração de segundo logo após a passagem das imagens, transformando a notícia num incidente (quase) dispensável, quanto mais não seja porque um clip de 30 segundos pode servir de “fundamento” a meia hora de análises... Pior um pouco, perpassa por esta saturação analítica um veneno social cada vez mais agressivo no nosso quotidiano — no limite, há casos em que a mensagem que passa para o espectador o obriga a escolher um “pró” ou um “contra”, mesmo quando a complexidade dos factos, e também o mais rudimentar humanismo, o impede de purificar um lado e demonizar o outro (além de que tratar todos os conflitos como um frente a frente de dois lados não parece ser um primor de dialética). 

Kirk Douglas em Horizontes de Glória (Stanley Kubrick, 1957).
Kirk Douglas em Horizontes de Glória (Stanley Kubrick, 1957).

Involuntariamente, os analistas transformam-se em promotores de uma relação instrumental com as imagens (e os sons). E tanto mais quanto, não poucas vezes, as suas intervenções são reduzidas a um cantinho do ecrã, ao mesmo tempo que, em “loop”, vemos dezenas de vezes a mesma bomba a rebentar num lugar anónimo, ou um vídeo a preto e branco de um estilhaçar, ainda mais anónimo, cedido pelos serviços secretos de alguma das partes envolvidas num determinado conflito. 

Há outra maneira de dizer isto, não generalizável, mas dominante no espaço televisivo: a guerra vai sendo encenada como um rol de redundâncias que, no limite mais obsceno, adquiriu o vazio narrativo de uma novela. As guerras tendem a surgir transfiguradas em clips de um jogo de video — em termos práticos, ninguém os encenou enquanto tal, mas, sem escândalo para ninguém, são eles que dominam os ecrãs que consumimos. 

"Que acontece quando, em televisão, vemos uma bomba a rebentar e, no instante seguinte, se anuncia um espaço de análise?"

Esta banalização das imagens (que é também uma banalização do olhar de cada um de nós, espectadores) acaba por fazer com que tudo seja servido, implícita ou explicitamente, como uma apoteose de realismo que, por princípio, não admite discussão. É esse, aliás, o cerne da tragédia mediática em que vivemos. Ao longo dos últimos vinte anos, a sua caução simbólica enraizou-se nas televisões de quase todo o mundo através do triunfo da Reality TV — o Big Brother e as suas derivações impuseram a “ideia” segundo a qual uma câmara televisiva colocada em frente do que quer que seja representa um automático reforço do real, indiscutível, descartável e, nessa medida, diariamente renovável. 

Não surpreende, por isso, que alguns canais televisivos nascidos em nome da informação tenham suprimido qualquer acompanhamento regular do mundo do cinema (e de todas as actividades artísticas). Seria, aliás, interessante reavaliar as apostas de muitos filmes que ousaram representar a guerra — penso, por exemplo, em Roma, Cidade Aberta (Roberto Rossellini, 1945), Horizontes de Glória (Stanley Kubrick, 1957), ou Platoon (Oliver Stone, 1986). Não para “copiar” os seus realismos, antes para com eles repensarmos o valor de cada imagem e as responsabilidades inerentes à sua produção e difusão. 

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