Amodei quer ser um dos novos tipógrafos do Rei. Para não ter de pagar a conta

Por quem os sinos dobram em Silicon Valley: quando a física, a rede elétrica e a desilusão do retorno financeiro travam a IA, resta aos seus magnatas, autointitulados “humanistas”, inventar a virtude do medo e convocar a tutela do Estado. Como sempre.
Ricardo Simões Ferreira

Editor Executivo Adjunto do Diário de Notícias e Diretor Executivo do Motor24

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A súbita eclesiástica conversão dos barões industriais à moderação moral deve sempre ser recebida com a cautela de quem não nasceu nem ontem, nem anteontem. Quando Dario Amodei, líder da Anthropic, veio a público, este fim de semana, com o manifesto We Must Pace the Frontier, e reforça este argumentário numa aparição dominical na CBS, a clamar pelo travão regulatório do Estado à IA, qualquer audiência menos atenta (ou mais sedenta de histórias com heróis invulgares) terá visto ali o voluntarismo desinteressado de um criador horrorizado com a sua própria criatura.

Mas bastará raspar a camada de verniz ético para encontrar uma realidade muito mais rasteira: o maior problema da tecnologia de ponta, neste momento, não é ela estar prestes a tornar-se omnipotente, mas o facto de estar a embater violentamente na física e nas folhas de cálculo.

Basta verificar a precisão cirúrgica desta crise de consciência, e quem exatamente é nela apanhado: Amodei e Altman, ou seja, Anthropic e OpenAI, duas empresas que não dispõem de recursos de hardware próprios para responder às necessidades dos clientes. Ambas muito dependentes da capacidade de terceiros, como a AWS e a Microsoft. E Musk, cuja capacidade de resposta da sua xAI ainda não conseguiu acompanhar o nível da concorrência.

Vamos à enumeração dos factos: ao longo dos últimos três anos, os grandes laboratórios de Inteligência Artificial alimentaram um ciclo frenético de promessas demiúrgicas para sugar centenas de milhares de milhões de dólares em capital de risco. Chegou o momento em que o mundo começou a cobrar a fatura. A rede elétrica recusa-se a fornecer gigawatts de um dia para o outro, a termodinâmica impõe limites severos à dissipação de calor nos centros de dados, o corpus de texto humano de qualidade que existe em toda a internet para alimentar o pré-treino esgotou-se. Literalmente. E, como ainda esta semana os dados da McKinsey nos recordavam, as empresas começam a sentir que o retorno de investimento (ROI) da IA generativa é pouco tangível (fica-se pelos 37%, na melhor das hipóteses).

Na Engenharia, a isto chama-se estrangulamento operacional e saturação de escala. E o pior, para Amodei e companhia, é que na Contabilidade a isto chama-se ameaça de desvalorização em bolsa. Claro que admitir a investidores e parceiros que o caminho se tornou proibitivamente caro e que o produto tropeça em limites técnicos estragaria a narrativa, pelo que… Eis a cruzada de salvação civilizacional. Se o ritmo tem de abrandar por falta de energia e de clientes pagantes, é com certeza infinitamente mais rentável dizer ao mundo que se abranda por benevolência e temor à morte. Ou para salvação do bem. Ou algo do género.

O que aliás encaixa na perfeição no perfil do cofundador da Anthropic (ex-OpenAI), como o mesmo revela na entrevista à CBS, ao assumir que ele próprio não entende – e que os seus amigos também não… – por que motivo o governo norte-americano não “toma conta disto”. Da IA, entenda-se. Este “poder” não deveria estar nas mãos de privados! – prossegue o milionário, que fez fortuna criando estes sistemas.

Ao mesmo tempo, no seu ensaio, detalha o modelo que quer ver concretizado: que os governos concedam isenções às leis da concorrência (antitrust) para permitir que os grandes laboratórios coordenem ritmos de lançamento e imponham auditorias que só os orçamentos de gigantes tecnológicos conseguem pagar. Mas depois, na entrevista, nega terminantemente que esteja a querer impedir que novos players – pequenas empresas, como startups – entrem no mercado…

Há uma máxima de que gosto muito: “Se confias no Governo, não sabes nada de História.” É provável que Amodei saiba pouco de História, de facto. Até porque o que o líder da Anthropic propõe não tem nada de novo: é a cópia em digital do infame Licensing Act de 1662.

Quando a imprensa de tipos móveis começou a disseminar panfletos e conhecimento fora do controlo das elites inglesas no século XVII, a Coroa britânica não proibiu a palavra impressa invocando a tirania pura e simples. Fê-lo sob o pretexto da segurança da comunidade e da contenção de heresias perigosas. A solução régia não passou pela gestão estatal direta das prensas, mas pela criação de uma aliança conveniente: entregou-se o monopólio legal da impressão a uma corporação fechada de mestres artesãos – a Stationers’ Company.

O pacto era, aliás, transparente. Em troca da exclusividade do mercado e do poder de caçar qualquer tipógrafo clandestino que ousasse imprimir sem licença, os membros da Stationers’ Company submetiam todas as publicações ao crivo do censor do Rei. A segurança do reino servia de pretexto moral; a proteção de um oligopólio comercial era a moeda de troca.

É rigorosamente este o modelo que Amodei defende no seu texto, para o séc. XXI. Ao pedir que “os Estados democráticos” acordem avaliações de conformidade hiperbólicas e processos burocráticos bizantinos antes de qualquer modelo de fronteira ver a luz do dia, Silicon Valley não está a proteger o cidadão contra a Inteligência Artificial geral. Está a pedir uma licença régia contemporânea para sufocar o ecossistema de código aberto, estrangular os projetos académicos independentes e eliminar a concorrência ágil de quem não tem centenas de milhões de dólares para sustentar exércitos de peritos acreditados em Washington ou Bruxelas.

Mais grave ainda: entregar as chaves da infraestrutura computacional ao Estado na esperança de um árbitro neutro ignora aquilo a que os historiadores da economia chamam “efeito de catraca”. Como a História demonstra, o poder coercivo que o Estado adquire sob o manto de uma suposta emergência civilizacional nunca é restituído. Longe de travar perigos, a tutela pública transformará a IA num instrumento imediato de vigilância, censura discricionária de discurso e simbiose com o complexo militar e de defesa – esse sim, o único cliente com bolsos fundos o suficiente para financiar centros de dados sem se preocupar com folhas de cálculo de rentabilidade.

A encenação de quem nega pretender um monopólio, enquanto desenha a arquitetura legal para o edificar, é a suprema hipocrisia deste ciclo tecnológico. Amodei e os seus discípulos, que ajudam a atear a histeria do apocalipse para vender a ilusão de que criaram deuses de silício, agora que o mercado exige contas e a realidade impõe limites, correm para os braços do Estado paizinho para garantir que ninguém mais tem autorização para segurar uma mangueira. E, ao fim do dia, para ver se não pagam a conta se a bolha que criaram rebentar.

O maior risco que a tecnologia enfrenta hoje não reside na IA tornar-se consciente já amanhã; está no facto de o mercado poder estar prestes a ser capturado por um sindicato de novos tipógrafos do rei, abençoados pelo poder político e confortavelmente blindados contra a disciplina da concorrência e da verdade.

Com este manifesto, Silicon Valley passou definitivamente a bola para o lado político, pelo que, no limite, só haverá um homem que poderá travar a concretização desta realidade: um homem tão instável quanto Donald Trump.

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