Ambições túrquicas 

Leonídio Paulo Ferreira

Diretor-adjunto do Diário de Notícias

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Recordo-me bem do azul resplandecente da cúpula do mausoléu de Khoja Ahmed Yasawi, incompleto, mas nem por isso menos belo. A construção é da era do conquistador Tamerlão, finais do século XIV, mas homenageia um poeta e místico que viveu dois séculos antes e deixou uma obra escrita numa das variantes das línguas túrquicas. A cidade do sul do Cazaquistão onde está o mausoléu é Turkistan, que se pode traduzir por Turquistão, e é considerada a capital cultural do mundo túrquico, um mundo etno-linguístico que se estende dos Balcãs, na Europa, até ao extremo norte da Sibéria, na Ásia. O mundo que subitamente voltou a dar nas vistas quando em 1991 se deu a desagregação da União Soviética e se emanciparam, entre as 15 repúblicas soviéticas, cinco de língua túrquica: o Cazaquistão, o Uzbequistão, o Turcomenistão, Azerbaijão e o Quirguistão. 

Até ao fim da União Soviética só havia um país independente de língua túrquica, a República da Turquia, herdeira do Império Otomano, cujos fundadores tinham raízes nas estepes asiáticas. É normal, pois, que se confunda turcos e túrquicos, mas a segunda palavra designa uma realidade muito mais vasta, que engloba, por exemplo, os cazaques, cujo território é hoje o nono maior país do mundo. Ou os uzbeques, que são cerca de 40 milhões e têm Tamerlão como o herói nacional. 

Tal como os países de língua inglesa, francesa, espanhola, portuguesa ou árabe se associaram com maior ou menor convicção para fazer a sua voz conjunta valer mais do que as vozes isoladas, também os países túrquicos deram esse passo, a partir de uma ideia originalmente cazaque. E desde 2009 existe a Organização dos Estados Túrquicos (OET), atualmente tendo como membros o Azerbaijão, o Cazaquistão, o Quirguizistão, a Turquia e o Uzbequistão. São quase 200 milhões de pessoas, um território de mais de quatro milhões de km2, e um PIB na ordem dos 2,5 biliões de euros. A sede é em Ancara, capital turca. 

A mais recente cimeira da OET realizou-se em meados de maio no Turquistão, a tal cidade cazaque berço cultural túrquico. E se para a Turquia, um país do G20, também membro da NATO e velho candidato à União Europeia, a aposta no mundo túrquico é sobretudo a construção de mais uma frente de política externa, a somar à europeia, à médio-oriental e à do Mar Negro, já, por exemplo, para um país como o Cazaquistão, trata-se de uma forma de reafirmar a sua identidade, de matriz túrquica embora multiétnica dada a história, e também de reforçar a sua diplomacia multivectorial, pois o conceito de mundo túrquico não é indiferente aos dois vizinhos gigantes, e estou a falar da Rússia, com populações tártaras e outras espalhadas pelo território, e da China, pois a província chinesa do Xinjiang é o antigo Turquestão Oriental, e o principal dos seus povos é o uigure, túrquico. 

Por muito remotos que possam parecer a cidade do Turquistão, o Cazaquistão ou o próprio mundo túrquico, esta é uma região do mundo com grande dinamismo. E o apoio dado pelo presidente cazaque, Kassim-Jomart Tokayev, anfitrião da recente cimeira da OET, à iniciativa “Altai -berço da civilização túrquica” comprova a amplitude da visão estratégica do Cazaquistão, que olha como oportunidade de futura cooperação para as velhas conexões culturais com a Rússia, a China e a Mongólia, tudo países de maioria não túrquica, mas com inegável contributo das etnias túrquicas para a formação da identidade nacional.  

Jean-Paul Roux, grande historiador francês já falecido, é autor de uma extraordinária Histoire des Turcs: Deux mille ans du Pacifique à la méditerranée. Os ‘turcs’ de que fala no livro são os povos túrquicos, uma pluralidade imensa, que deu ao longo da história dinastias mesmo fora da sua área de origem, como os mogores na Índia e os mamelucos no Egito. Não será fácil aos países da OET transformar a história antiga partilhada e a persistente afinidade cultural em interligação económica e comercial, mas a origem comum das línguas (mesmo se a proximidade do turco com o azeri, por exemplo, já não acontece com o cazaque) serve de motivação e até pode resultar.

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