O 15.º Plano Quinquenal da China (2026-2030) marca um ponto de viragem crucial: ao invés dos planos anteriores focados em crescimento explosivo, este prevê um “crescimento moderado [de 4,5-5% em 2026] do PIB, focado em alto valor agregado, qualidade, resiliência e liderança tecnológica global.“Um dos pilares centrais deste planeamento é o reforço da independência tecnológica, com um aumento dos gastos anuais em I&D >7%,”, com ênfase no que designa por “novas forças produtivas de qualidade”. Isto significa menos dependência de manufatura de baixo custo e mais foco em: (i) semicondutores e Inteligência Artificial; (ii) biotecnologia e computação quântica; (iii) manufatura avançada (automação de fábricas e robótica industrial de ponta).A estratégia da “dupla circulação” é outro pilar deste Plano, para proteger a economia chinesa de choques globais e tensões geopolíticas: (i) circulação interna (prioritária), fortalecendo o mercado doméstico e o consumo das famílias para que a economia dependa menos das exportações; (ii) circulação externa, mantendo o comércio global, focando em mercados do “Sul Global” e na iniciativa Cinturão e Rota (BRI).Outro relevante pilar é o da transição verde e “civilização ecológica”, atento o compromisso da China de atingir o pico de emissões de carbono antes de 2030, nas áreas de: (i) energia limpa, com uma expansão massiva de infraestrutura solar, eólica e nuclear; (ii) descarbonização, com incentivos para indústrias pesadas reduzirem a sua pegada de carbono; (iii) veículos elétricos (EV), mantendo a dominância global na cadeia de fornecimento de baterias e EV.A segurança nacional e social é o quarto pilar, agora tão importante como o PIB, com políticas públicas em áreas-chave: (i) a segurança alimentar e energética, visando a redução da vulnerabilidade a interrupções nas cadeias de fornecimento; (ii) a demografia, prometendo políticas agressivas para combater o envelhecimento da população e incentivar a natalidade; (iii) a “prosperidade comum”, com vista a reduzir a desigualdade entre áreas urbanas e rurais (prevê-se a urbanização de mais 5-7% da população rural); (iv) a defesa externa, com reforço de [apenas] 7% do orçamento militar em 2026.Atenta a relevância da China na economia mundial, este Plano Quinquenal terá implicações globais, nomeadamente no comércio e no investimento, na tecnologia e na inovação.Porém, é importante ter presente que o pano de fundo histórico tem muitas áleas. Apesar dos [bons] números oficiais quanto à economia chinesa, o FMI prevê “a persistência de pressões deflacionistas”, com o risco de “uma contração mais acentuada do que a esperada no setor imobiliário, que, combinada com elevados níveis de endividamento, poderá contribuir para uma maior debilidade da procura interna, deflação consolidada e contínua dependência das exportações.”