Almirante Reis: a ciclovia que é o espelho de Moedas

Davide Amado

Presidente da Concelhia do PS de Lisboa

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Quiseram as vicissitudes da vida que tivesse de percorrer este sábado mesmo a Avenida Almirante Reis, o que me lembrou que em 2021, Carlos Moedas fez da ciclovia da Almirante Reis a bandeira mais audível da sua campanha. Ia acabar com aquilo. Era a promessa fácil, a que se percebe sem explicação e rende votos nas rádios da manhã. Aquelas onde se inscrevia para depois agradecer o convite. Quase cinco anos depois, a ciclovia lá estava. Não acabou, não foi melhorada, ou substituída por coisa nenhuma. Ficou onde estava, à espera de um presidente que decidisse.

Convém recordar que esta ciclovia nasceu do pensamento de Fernando Medina. Uma ideia, discutível mas coerente, de que Lisboa devia ter uma rede ciclável a sério. Foi instalada em 2020, em plena pandemia, com a pressa que o momento impunha, e foi sendo corrigida ao longo do tempo precisamente para ser mais segura. Podia ter-se feito diferente? Podia. Foi feita com um propósito? Foi.

Moedas fez o contrário: prometeu sem propósito. Em maio de 2022 mandou arrancar um troço junto à Alameda, tapado a alcatrão de um dia para o outro. Semanas depois recuava, alegando que o tema era “demasiado relevante para jogos partidários”, depois de ter sido ele a partidarizá-lo durante uma campanha inteira. E ancorou esse recuo num estudo do Laboratório Nacional de Engenharia Civil que mandou contratar por ajuste direto e que nunca tornou público.

É este o ponto que mais devia incomodar. Em dezembro de 2023, a Assembleia Municipal aprovou por unanimidade, sob proposta da Iniciativa Liberal, hoje parceira de coligação, uma recomendação a exigir a divulgação das conclusões do LNEC. Nunca chegaram. E a comunicação social, que tanto amplificou a promessa, não voltou a bater à porta. Não perguntou onde para o relatório, o que custou, o que diz. O escrutínio parece ter-se esgotado no anúncio.

Aqui se percebe o que Moedas é. Não é um homem de executar. É um bom apresentador de trabalho alheio: quase tudo o que cortou fita nestes anos foi pensado e decidido por quem lá esteve antes. Gestor de processos formatado em Bruxelas, encalhou numa cidade que exige decisões e obra feita. Uma chatice para quem passa os dias a contar likes no TikTok.

Nos próximos meses veremos máquinas na Almirante Reis. Vem aí a requalificação de 20 milhões, anunciada em 2024 e sucessivamente empurrada no calendário, e virá com fotografias e a palavra “transformação”. Não é obra. É propaganda. Moedas a ser Moedas. Sem escrutínio.

E, no entanto, as ciclovias são precisas. Não por moda, mas por ordem: para que bicicletas e trotinetas não andem em cima dos passeios, não atropelem quem caminha, não fiquem largadas em qualquer esquina. Uma cidade decide onde as coisas circulam e onde param, ou deixa de decidir e paga a factura.

Lisboa não precisava que Moedas cumprisse a promessa. Precisava que tomasse uma decisão. Qualquer uma. O que ficou por explicar aos lisboetas não é a ciclovia. É o silêncio.

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