Não precisávamos das manifestações da plataforma Casa para Viver, que este fim de semana voltaram às ruas de várias cidades, para denunciar que a crise da habitação continua por resolver, mas por vezes é bom lembrar quais as reais prioridades coletivas que se espera ver refletidas na agenda política. E a crise da habitação em Portugal não só persiste, como se agrava a um ritmo inquietante, com os preços das casas a baterem máximos sucessivos, as rendas a crescerem acima da inflação e os despejos a dispararem quase 50% em 2025.Estamos perante um dos principais problemas sociais desta geração, se não o principal. As causas são conhecidas e estão sobejamente apontadas. Portugal tornou-se altamente atrativo para a procura internacional - de investidores a nómadas digitais e classes médias globais - e um destino apetecível tanto para turismo, como para imigração. Como referia recentemente o economista Félix Ribeiro, colocámos “a terra portuguesa no mercado internacional”. O problema é que a oferta não cresceu ao ritmo da procura e os rendimentos dos portugueses não acompanharam essa globalização.Ao mesmo tempo, várias das medidas adotadas já por este Governo - como a isenção de IMT e Imposto de Selo para jovens, combinada com crédito a 100% com garantia pública, por exemplo, na louvável tentativa de fixar jovens no país - acabam por ter um efeito pernicioso, aumentando a procura num mercado já saturado, enquanto as medidas para incrementar a oferta só serão visíveis a médio e longo prazo. Também no arrendamento, como sabemos, o conceito de “renda acessível” inclui valores que estão longe de ser comportáveis para a classe média, o que não resolve o problema de fundo.O retrato atual do mercado mostra-nos que os preços continuam a subir, o arrendamento acessível não é realmente acessível e o mercado continua inflacionado pela lógica do investimento.Faltará equilibrar um pouco esta balança legislativa, como já começaram a fazer alguns países que lidam também com a crise na habitação, independentemente da matriz ideológica da governação. Há exemplos diversos de regulação mais efetiva, como a limitação de compra por não-residentes em zonas críticas, aumento na taxação de casas devolutas, restringir o Alojamento Local onde há maior pressão ou penalizar a acumulação de múltiplos imóveis. Sem isso, qualquer esforço do lado da oferta arrisca ficar sempre curto - e também aqui o Estado continua a deixar o mercado quase exclusivamente nas mãos dos privados, quando poderia, por exemplo, criar um parque público de arrendamento acessível.Hoje, Portugal é o país da União Europeia com as casas mais sobrevalorizadas, segundo Bruxelas. Atualmente não é só difícil entrar no mercado, as pessoas já não conseguem manter a casa. Numa conjuntura internacional instável como a que vivemos, com a volatilidade do custo de vida provocada pelos humores instáveis de alguns dos principais atores da política internacional, a crise da habitação é uma bomba-relógio social em contagem decrescente acelerada.