Agostinho da Silva, o anarquista tropical

Manuel José Guerreiro

Presidente da Caixa de Crédito Agrícola Mútuo de Torres Vedras

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Na próxima terça-feira acontecerá em Torres Vedras um encontro internacional luso- brasileiro sobre Agostinho da Silva. No ano em que se assinalam os 120 anos do seu nascimento e os 30 anos da criação da CPLP, associámo-nos desde o primeiro dia a uma iniciativa que celebra o grande filósofo português. Estive, como sabe, se me lê nestas “conversas” semanais, em Belo Horizonte. Sendo o único português presente nos fóruns de discussão - numa das maiores iniciativas do cooperativismo global - tive a oportunidade de ouvir, de conhecer pessoas extraordinárias, de trocar ideias e de partilhar e influenciar acerca do que fazemos e acreditamos.

Foi uma semana interessante, até pelo clima eleitoral impossível de ignorar. Curiosamente, Agostinho da Silva motivou várias conversas - a sua presença de mais de 20 anos no Brasil revolucionou a educação e o pensamento de gerações de intelectuais brasileiros. No encontro de terça-feira, a que desde já o convido, alguns dos maiores especialistas do seu percurso e pensamento terão a missão de desencadear perguntas e palavras que provoquem, que incendeiem, que inquietem.

Precisamos tanto disso, de imaginar novas respostas, de não ficarmos limitados aos que têm o predomínio do poder, da influência, do dinheiro. O mundo não pode depender de um pensamento único, das lideranças de Trump e Putin, de uma escravidão totalitária que nasce da democracia e que a ameaça todos os dias.

Vi-o uma única vez. Estava à porta de sua casa . Falou e eu escutei - recordo a sua voz e presença. Era radicalmente diferente e iluminado. Dizia coisas estranhas para quem estivesse formatado. Um anarquista tropical, uma criança de olhos permanentemente curiosos, não pelo lado ingénuo, mas pelo espanto primordial, o “Thauma” de Aristóteles, o maravilhamento perante o mundo. Um homem radicalmente livre que desejava a conquista de uma Liberdade coletiva que não passava pelo que é normativo, pelo que é imposição, no limite por tudo o que significa o aprisionamento das potencialidades de qualquer recém-nascido - por isso, recusou ter Cartão de Cidadão ou ser reduzido a um qualquer número que o identificasse. Agostinho desobedecia ontologicamente, recusava qualquer tentativa de domesticação.

Era um pacifista. Acreditava no afeto e na gentileza. Sabia que a maneira como tratávamos os outros e o mundo definiria a forma como seríamos tratados pelos outros e pelo mundo. A gentileza gera gentileza, o ódio gera ódio. Era um revolucionário, um radical do Bem, um provocador de pensamento - para Agostinho o ser criança na sua capacidade inata de brincar, imaginar e descobrir, significava o ser em plenitude. Falta-nos isso e é isso que será debatido - como neste tempo de dogmas e dogmáticos podemos voltar a imaginar e a descobrir? Como conciliar o tempo na sua inexorável passagem com a eternidade de cada segundo, como unir o Kronos e o Kairos que tanto agitou os pitagóricos na Grécia Antiga? Como combater por um desígnio patriótico sem sermos associados a ideias profundamente erradas e atentatórias da nossa identidade? O Quinto Império de Bandarra e do Padre António Vieira, reinventado por Agostinho da Silva, não é um sebastianismo, mas uma missão histórica que nos pode unir num ideal de paz, justiça, fraternidade e cooperativismo.

Sou um capitalista social, acredito no progresso, na tolerância, na liberdade e na Pátria. Acredito que todos devemos fazer mais um bocadinho e honrar o pensamento de Agostinho da Silva - não por concordarmos ou não com ele, mas por precisarmos de voltar a pensar sem dogmas, pondo tudo em causa, destruindo para voltar a construir um edifício que ruirá se não formos capazes de resgatar o que ilumina, o que nos faz maiores: uma ideia de Bem capaz de contaminar o mundo.

manuel.guerreiro@ccamtv.pt