Passa-se de raspão pelos fóruns radiofónicos dedicados às guerras em decurso e ouvem-se conversas a apelar ao conhecimento da História para compreender o que se passa. Claro que têm a sua razão, mas é melhor desesperarem, porque estamos a formar gerações com uma pincelada de 2 horas semanais para contar a História da Humanidade. Tudo reduzido ao “essencial”, se possível com muita coisa entretida e lúdica pelo meio.Em tempos, ensinavam-se as civilizações dos grandes rios e até se começava pela Mesopotâmia, mas agora passa-se só pelo Egipto e em passo de corrida. A Antiguidade Clássica é despejada em duas penadas. Esparta estava lá, para comparar com Atenas, mais saiu para voltar fugazmente, até desaparecer de novo. Falava-se, mesmo que pouco, das Guerras Médicas, mas hoje quem ouvir isso pensa que se está a falar nalguma disputa entre hospitais sobre qual fica com urgências abertas. Guerras Púnicas? Nem pensar nisso, que é coisa de velhos sem qualquer interesse. Roma? Esqueçam a República, que só começou em 1910.Nem a História da Europa se aprende de forma mediana, de tanta crítica ao eurocentrismo. É inútil pensar que existe alguma preocupação em quem desenha as “aprendizagens” em que se explique aos alunos como foi definido o mapa das nações (políticas, religiosas, culturais), entre os séculos XVII e XIX, ou se deu a ascensão e queda dos Impérios, que isso é neo-colonialismo. A Paz de Vestefália é para eruditos arcaicos; o Congresso de Viena já seguiu quase o mesmo caminho. Da Conferência de Berlim ainda se fala no 6.º ano, mas parece que o 2.º ciclo é para acabar.Mesmo o trágico século XX tem de ser dado em passo de marcha, para ficar tudo em modo de amálgama, a menos que consigamos ignorar o bombardeamento com “projectos”, visitas, saídas, entradas ou coisas giras de fazer, tipo torneios de chinquilho às três tabelas, com zero de substância. Mas o problema é dos programas, que devem ser mais curtos. Ainda se deve ensinar menos.Estamos a ficar desmemoriados enquanto sociedade, com indivíduos fixados no scroll dos ecrãs com coisas divertidas? Sim e cada vez vai ser pior, porque a “Educação do século XXI” se rendeu à lógica da superficialidade e rapidez. Com a validação de uma multidão de sonsos, pedagogos incluídos. Não esperem que a maioria da população entenda que a maior parte das guerras - como no Médio Oriente - é causada pelo fundamentalismo de religiões monoteístas que, na sua raiz, carregam a intolerância com a alteridade. Ou então pela tentação de fazer reviver impérios antigos ou prolongar hegemonias em erosão.Não adianta esperar cidadãos esclarecidos e conhecedores do que está em causa na Ucrânia, em Gaza, no Irão ou mesmo em Taiwan ou Cuba se deixaram que a História fosse esquartejada e substituída nos currículos escolares por temas tão dignos de Memória quanto o empreendedorismo, a prevenção rodoviária, o ciclismo ou o Halloween, típicos de uma preocupação em criar uma enorme parcela de indivíduos meramente funcionais ao nível mais básico. Ninguém quer que consigam mais do que ir atrás dos engodos de cada momento. Escreve sem aplicação do novo Acordo Ortográfico